A dança das relações: André Bern entrevista Paulo Marques

[entrevista realizada em maio de 2010, no Centro Coreográfico do Rio de Janeiro]

André Bern – O crítico Roberto Pereira definiu dança contemporânea, numa de suas oficinas, como sendo a dança do indivíduo. Qual é a dança do Paulo Marques?

Paulo Marques – A minha dança está muito mais vinculada às relações humanas. Ela acontece na minha relação com o diretor, o bailarino, o aluno. Ela envolve mais coisas, não só o resultado. A experiência dentro de uma sala de aula é movimento,  encontro. Não vou dar aula, vou me encontrar com as pessoas. Então, a minha dança é feita no dia-a-dia. Não tenho uma dança específica. Sou professor de balé clássico, essa é a minha formação, mas sempre estive envolvido com teatro, dança contemporânea, agora com vídeo. Então, a minha dança é espaçosa, cheia de espreguiçamentos.

AB – Como convivem essas duas facetas, ser professor de balé clássico e um profissional tão requisitado pela dança contemporânea?

PM – Na verdade, eu cheguei à dança por causa do teatro. Quando eu tinha uns dezesseis, dezessete anos, fui aconselhado a fazer dança. “Você quer ser ator, tem que fazer um pouco de dança.” Então, lá fui eu fazer umas aulas de balé. Meu objetivo era ser ator, eu tinha paixão pelas telenovelas, achava lindo aquilo. O teatro ainda não estava tão próximo. O que eu tinha de relação com a arte estava na novela, na televisão. Eu queria fazer teatro. Um amigo, o coreógrafo Fábio de Mello, que também fazia teatro, me convidou: “Paulo, vem fazer umas aulas de balé, conheço uma academia em Copacabana, vamos te dar uma bolsa”. Na primeira aula de balé percebi que era aquilo. A professora chegou a perguntar se eu tinha feito outras aulas de balé. Não digo que era porque eu tinha talento, mas eu tinha uma disponibilidade com o corpo, um potencial. Aí comecei a fazer balé, balé, balé. Entrei para a Escola de Dança [Escola Municipal de Danças Maria Olenewa] e logo o falecido professor  [Edmundo] Carijó me convidou para dançar no Balé Oficina. Lá conheci a Giselda [Fernandes], com a qual desenvolvi uma parceria muito forte. Eu saí do Balé Oficina, ela ficou. Muito tempo depois, a gente se reencontrou num outro estúdio e estava muito ansioso, querendo criar. Não era apenas o balé que podia proporcionar aquele desejo. O balé tinha uma questão técnica, que a gente sempre adorou, mas tinha uma fala que era necessária. A gente não sabia exatamente o que fazer, então fomos auto-didatas. Eu inventei que era coreógrafo, ela inventou que era bailarina contemporânea, e a gente começou a criar vários solos. Acho que fiz uns dez solos para a Giselda. Éramos muito garotos. O balé sempre esteve muito presente, teve a coisa da criação, e também teve uma relação muito próxima com o marido dela, o Hilton Berredo, que é artista plástico. Eu fazia as aulas de História da Arte Contemporânea que ele dava. Tinha uma sopa, uma curiosidade ali, o teatro, a dança, as artes plásticas, tinha que dar no que deu. Eu ainda passo por umas adaptações. As pessoas não entendem bem isso. Uma vez me disseram “fiquei sabendo que agora você é o queridinho da dança contemporânea”. Fiquei chateado porque sempre fiz dança contemporânea. Não saí do balé para fazer dança contemporânea, as coisas seguiram juntas. Da minha geração, dei aulas de balé para a Lia [Rodrigues], para o João Saldanha. São pessoas da minha geração. A gente fez balé junto, se conhecendo. O João começou a coreografar, a Lia também. Envelhecemos juntos. Então, não foi um deslocamento, algo do tipo fiz balé, depois fui pinçado pela dança contemporânea. Não foi assim. O que aconteceu de interessante foi que eu comecei a pensar um balé para essas pessoas, para mim. Meu pé é feio, sou en dedans, gordinho, então comecei a pensar como esse balé pode ser mais generoso. Tive uma formação bem rígida, acabei com meu joelho por isso. Não tenho nada contra aquele balé, não crio conflito com relação a isso, mas comecei a construir um balé diferente. Primeiro, para meu corpo, o que me fez mudar muito o olhar. Sou chamado a colaborar com esses coreógrafos contemporâneos, seja dando aula de balé ou minha opinião, por conta disso. Tem uma geração que veio chegando junto e, além disso, acho que trato o balé de maneira diferente. Eu faço as pazes, tento fazer com que o balé seja mais generoso com esse corpo contemporâneo para que eles possam se encontrar. Depois de ficar um tempo sem dar aula de balé, voltei e tive que conquistar um novo público. Eu falava de balé e as pessoas se retraíam, tinham medo. Quando dei aulas no Ateliê Coreográfico [projeto da primeira gestão do Centro Coreográfico do Rio de Janeiro], era uma luta. Eu dizia, “calma, primeiro respira, vai dar tudo certo”. Acho que o balé é genial o suficiente e por isso pode ser adaptado. Inclusive, muitas de minhas parcerias são com alunos que me convidam a trabalhar com eles. É o que acaba acontecendo.

AB – No momento, o que te ocupa artisticamente?

PM – Mesmo aos quarenta e cinco anos, ainda fico pensando as relações humanas. Isso não sai da minha cabeça, penso e repenso muito… como as pessoas te veem, por exemplo. Tem uma geração, acho que é a sua, que trouxe muita informação. Agora tem essa coisa da universidade, isso ainda é uma coisa nova, pelo menos no Brasil. Acho isso muito bom com relação à formação, mas às vezes me parece que as pessoas perdem um pouco o foco. Elas começam a fazer muitas coisas ao mesmo tempo. E aí acho que as coisas ficam um pouco vazias. Digo aos meus alunos: “Não dá pra fazer tudo na vida. Se nesse período você quer fazer aulas de balé, então pensa nisso. Ah, quer escrever um livro? Então, escreva o livro!” Mas aí, quer escrever o livro, quer fazer mestrado, jazz, sapateado, aula de balé. Não dá! Quer ser tudo, sabe, e aí, no final das contas, não consegue ser nada. Eu sinto isso no vai-e-vem da aula. A pessoa vem, faz aula, para dois meses, e depois volta. Vai e volta. A questão aqui não é o balé, poderia ser dança contemporânea. As coisas precisam de um tempo de amadurecimento. O corpo precisa entender aquilo, algumas “fichas” têm que cair. Eu digo a esses alunos, “para, você está perdendo seu dinheiro”. Não sei mesmo. Talvez daqui para a frente as coisas sejam assim, meio-meio. As pessoas são meio isso, meio aquilo, meio multimídicas, fazem muitas coisas. Pode ser apenas minha opinião, mas se você abre um livro, tem que ir até o fim porque você não sabe o final da história.

AB – Você não acha que é uma questão dos tempos atuais essa velocidade no desempenhar de tantas tarefas ao mesmo tempo? Não tem a ver com uma tentativa de visibilidade dessa geração da qual faço parte?

PM – Acho o contrário, aí é que se torna invisível. Por exemplo, estou numa roda de pessoas da minha geração e surge a pergunta “Quem você acha que faz bem isso?” Só consigo pensar em gente da minha geração. Aí penso nessa garotada e lembro de que uma já fez, outra começou a fazer. Não sei. Acho que hoje em dia existe uma exigência multimídica, internética. Mas ter informação é outra coisa. Quando tenho tempo livre, baixo coisas da internet, leio, vejo filme, faço várias coisas. Mas quando se trata de um projeto, como estudar a história do jazz, passei dois anos me dedicando a isso. Só assim pude tirar um “caldinho” daquela referência que andei estudando. Não sei, André, acho que a gente é solicitado, mas tem que ter bom-senso. Tem que parar, respirar um pouco e se perguntar “O que é verdadeiramente importante para o que eu faço?” Nem estou falando de sobrevivência, provavelmente você estava falando disso. Quando o assunto é sobrevivência, você tem que ralar, mas estou falando de outra coisa. Tem gente que não sabe o que quer dançar, por exemplo. Também não sabe se quer coreografar. Fica no que chamo de “eterno recomeço”, estão sempre recomeçando. Acho que falta consistência. Se você quer ser coreógrafo, então mete a cabeça nisso. Tem que estudar. Vejo gente que já assume uma certa pose de coreógrafo, sabe aquela cara de coreógrafo, mas não faz nada. Fica com uma aura de soberba que não leva a lugar nenhum. Ser coreógrafo é uma conquista. Outro dia, estava vendo um documentário, onde um crítico falava de um jovem coreógrafo. Sabe quantos anos ele tinha? 50 anos. Pois, é, acho que existe uma precipitação. As pessoas são coisas rapidamente. Como numa época, há uns anos atrás, em que todo mundo se dizia ator. Acho que se perdeu uma noção de ofício. Sinto que as pessoas têm várias coisas, mas não têm um ofício. Posso realmente estar enganado, talvez seja uma coisa da geração. Estou esperando os resultados, esperando acontecer. Ainda não vi.

AB – Como você enxerga a questão da técnica, tendo convivido com modos tão distintos de se fazer dança, como o balé e a dança contemporânea? O sentido da palavra “técnica” ainda é o mesmo para você?

PM –  Quando eu tinha dezessete anos, ela tinha uma função: eu queria tirar pirueta (risos). Lógico que tinha uma satisfação corporal forte ali. Isso vai mudando ao longo do tempo. Às vezes, eu percebo um discurso como se a técnica não fosse mais amiga da dança contemporânea. Parece que as coisas começaram a não conviver mais juntas. Como se não precisasse ter técnica para ser bailarino contemporâneo. O que acontece é que o mundo contemporâneo nos liberta disso, de certa forma. Posso mesmo não fazer nenhuma aula e ter a minha técnica. Minha técnica pode ser não fazer nada e pensar uma determinada cena. Acho que você pode fazer uma boa dança contemporânea sem a técnica do balé clássico. Mas a técnica vai esbarrar no seu pensamento, no que você se propõe, na labuta do dia-a-dia do seu trabalho. A Denise Stutz, por exemplo, vejo que ela é muito disciplinada. Tem o trabalho dela, o corpo dela, faz balé quando tem tempo. Tem horário de chegar, de sair, tem o treinamento dela, pensa sobre o trabalho dela, isso é técnica. É a técnica dela, que desenvolveu ao longo de uma vida inteira. Dançamos juntos, inclusive. Acho que se vive sem o balé, não se vive sem a técnica. A Esther [Weitzman] também tem a técnica dela, sabe muito bem o que quer. Tem refêrencias muito fortes, tem pensamento de dança. Fez minha aula de balé também.

AB – Você acha, então, que técnica é uma construção.

PM – Sim, é uma construção. Minha referência é o balé, é o meu ofício, então é disso que consigo me espreguiçar. As pessoas precisam fazer escolhas. Não dá para escolher tudo. Sei lá, acho que não. Talvez, quem sabe, se a gente tivesse um dia de 50 horas. Acho que a gente precisa fazer escolhas mais sérias, e dar tempo a elas. Senão parece que elas não amadurecem, fica tudo frenético demais. Pode ser coisa de velho (risos). Acho, inclusive, que você pode ser um coreógrafo de dança contemporânea super radical e fazer sua aula de balé. Não vejo problema algum. Mas é preciso escolher. O balé engessa se você quiser. Engessa porque você não pensou. Ninguém morre se não fizer balé, mas balé é ótimo (mais risos)!

AB – E suas últimas parcerias?

PM – Como bailarino, trabalhei muito tempo com Regina Miranda. Foi uma experiência muito boa, processos muito interessantes. A última parceria foi com a Esther, como bailarino também. Eu eventualmente danço, não me considero mais um bailarino. Foi um convite especial, o assunto me interessava muito, O que imagino sobre a morte [nome do espetáculo]. Pensei bastante, decidi topar. Conhecia pouco a Esther, só de beijinhos em noites de estreia, sabe. Ela me ligou, falou do projeto, me convidou a ir a um ensaio. Inicialmente, fui para dizer não. Ai, gente, tem que fazer dieta, fazer aula (risos). Não era para ficar magérrimo, mas para o meu joelho não reclamar. Eu tinha que colocar as coisas no lugar para entrar em cena, né? Para os meus parâmetros, eu preciso de um mínimo de conforto para pisar bem, estar bem amparado. Aí veio o ensaio, e eu não consegui dizer não. O projeto foi maravilhoso! Com a Giselda, tem muitos anos. A gente ficou muito tempo sem trabalhar junto, agora estou como colaborador. Passei muito tempo sendo ensaiador. Fui ensaiador da Stacatto [companhia do coreógrafo carioca Paulo Caldas], por exemplo. Não quero mais ser ensaiador. Acho que não tenho mais idade para isso.

AB – Fale um pouco dessa função, a de ensaiador.

PM – O lugar do ensaiador e o do coreógrafo são muito claros para mim. O do ensaiador é 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8… você estava no sete, você estava no oito, acerta o pé, juntos. Tem uma coisa mais militar. Vamos fazer juntos, vamos fazer separados. Eventualmente, fala alguma coisa de qualidade de movimento, blá blá blá. Essa coisa de ser ensaiador começou a me cansar muito porque passa a ser menos artístico. Você fica com a parte ruim do ensaio, sabe. Não tem a coisa da criação. Não que eu quisesse o lugar do outro. Aí, descobri um lugarzinho para mim, que é o do colaborador. Fiz colaboração para o espetáculo novo da Esther, para a performance nova da Gi [Giselda Fernandes], para o Teatro Xirê, da Andrea Elias. Nesse último caso, chega a ser uma direção de movimento. Na colaboração, eu enfio o dedo mesmo. “Esther, eu propus isso para eles”. Daí, ela vem, ou me deixa sozinho com os bailarinos, inclusive. Ela diz sim, não, discute comigo. Eu provoco o outro, então me sinto à vontade. E, afinal de contas, é o trabalho do outro, não o seu. Não que eu não cuide, mas é diferente. Eu sou o meu pior crítico. Sou muito ruim comigo. Coreografar para mim é um custo, auto-flagelo! Mas com o outro, com todo o senso crítico e carinho, consigo me liberar mais, deixar a fala fluir mais tranquilamente. Minhas parcerias são ótimas, pois tenho uma relação diferente com o bailarino, aprendo muito com o coreógrafo, qual é a ideia dele. E o que eu mais curto é fazer várias coisas ao mesmo tempo, com coreógrafos diferentes. Um fala de objetos, garrafas, que é o caso da Giselda. A Esther com o espaço-tempo, o próprio Caldas e seu fluxo, a Andrea, que faz teatro, dança contemporânea para crianças. É muito enriquecedor! Mas isso levou muitos anos para acontecer, não é exatamente fazer um monte de coisas ao mesmo tempo, como disse antes (risos). São quase trinta anos de dança para poder sair do meu ensaio aqui e começar a pensar como o coreógrafo do próximo ensaio, levar minhas ideias.

AB – Consistência e tempo são as palavras-chave.

PM – É, acho que sim. Teve um período em que eu estava trabalhando com a Carmen Luz, dando aula para Lia, já ensaiando com a Esther, colaborando com a Giselda, e já com a Andrea Elias. Era uma mulherada! E paralelamente, ainda dava minhas aulas. Ah, e ainda tinha um projeto com a Ana Paula Bouzas, que é atriz e bailarina. Eu pensava, “nossa, como eu consigo me dar bem com as pessoas!” São todas mulheres encantadoras. Tenho ótimas amigas, a gente conversa, trabalha, não tem problema. Acho que essa é a minha dança. Essa dança que eu faço aqui atrás, que ninguém vê, para mim é muito boa. Na verdade, não consigo dividir, não existe eu e a dança. Existe eu, a minha pessoa, e ela não é mais importante do que a dança. Faz muito tempo que não me considero melhor do que outra pessoa. Ser artista não tem nenhuma diferença. Todo mundo faz xixi, cocô, morre do coração. Só tenho meu ofício, que é diferente de ser motorista. O motorista pensa o trabalho dele, eu penso o meu. Por isso eu tenho esse fascínio pelas diferenças humanas todas. Sou meio viciado em gente, tenho uma paciência de Jó (risos). O primeiro Ateliê Coreográfico, por exemplo, aconteceu no Sérgio Porto [espaço cultural da Prefeitura do Rio de Janeiro] e dei aula de balé para umas cem pessoas ao mesmo tempo. Lembro que tive que subir numa mesa e tinha um pequeno discurso. Acho que era a primeira aula do Ateliê. Precisava dizer quem eu era e o que iria fazer com eles. Na turma tinha gente que fazia 32 fouettés na ponta, gente que nunca fez aula de balé nem sequer tinha visto um, cadeirantes. Então, acho que essa dança das relações é a que me interessa, pois eu faço amigos.

AB – Quais foram suas influências?

PM – Vou falar de ídolos porque, de certa forma, essas são as minhas referências. Super careta, mas é isso mesmo (risos). Foi Elis Regina. Eu era apaixonado, chorei muito quando ela morreu. Era uma referência muito forte, foi o que me levou para o jazz. David Bowie, fui do fã-clube dele quando era garoto. Tinha carteirinha e tudo, button, uma loucura. Depois eu fui tentar descobrir porque eu tinha essas referências. O Bowie tinha uma coisa camaleônica muito forte, ele era muitos ao mesmo tempo e isso me interessava. Eu tinha um álbum de fotos dele e, em cada foto, ele estava completamente diferente. Eu me perguntava, “como é que uma pessoa pode ser assim?” Fui procurar as referências dele, por que ele tinha aquele cabelo vermelho. Descobri que era por causa do Kabuki [forma de teatro japonês]. Então, essas pessoas me servem para descobrir como elas são, e daí me levam para outros lugares. Eu já fazia links há muito tempo (risos)! As pessoas me proporcionam pontes. Gosto muito do cinema, mas as pessoas são minhas maiores referências, não necessariamente o produto. Um exemplo super popular: a Madonna me interessa muito mais por conta do que ela é do que pelo que ela faz. Ela é tão vivaz, tão revolucionária nesse sentido. É comercial? É. Ela é esperta? É. Por que isso não pode ser bom? Ela está sempre em transformação. Tem 52 anos e está sempre antenada. Esses interesses deixam a pessoa verticalizada. Também tenho ídolos momentâneos. Por exemplo, na época do espetáculo da Esther, era Deus no Céu, Esther na Terra (risos)!

AB – Existe um apaixonamento…

PM –  Ah, sempre!

AB – Qual foi o último trabalho de dança que te moveu, emocionou?

PM –  O último que assisti foi o da Lia [Pororoca]. Às vezes, tenho preguiça de sair. Fico cansado, chega o final de semana, quero ver CSI [programa de TV]. Fico querendo mudar de assunto (risos). Mas, sim, o último espetáculo que assisti foi o da Lia. As pessoas me perguntam “O que você achou?” Eu paro e penso vinte vezes. Sabe por que? Aquelas pessoas são minhas alunas, então eu me envolvo. Não tenho nenhum talento para me separar daquilo. Posso sentar com você e fazer uma análise do espetáculo, mas estou sempre muito envolvido se eu participo daquilo. Quando tenho menos contato com aquelas pessoas, então me distancio mais. E aí não tem graça (mais risos)! Tem algumas pessoas nesse novo elenco da Lia que eu já venho acompanhando há bastante tempo. Tenho afeto pelas pessoas, pela Lia. Então, acho que isso muda minha maneira de olhar. Não sofro por isso. Digo “Não tenho opinião! Estão lindos, estão ótimos!” (risos) Claro que eu posso pensar “é uma super coreógrafa, uma pessoa séria”. É um outro lugar. O interessante é que eu vejo que tem a Lia, que já tem uma carreira, mas tem os jovens lá também, que são colaboradores dela, muito presentes. Isso está até no programa do espetáculo. Eu vejo que são colaborações antigas, as coisas precisam de tempo. O Allyson está lá há algum tempo, a Amália, o Jamil ficou muitos anos lá, a própria Micheline. É preciso ter esse tempo, sabe André, para entender a cabeça da pessoa, para entender o trabalho. Acho que, por isso, tem resultado. Eu sei que é muito difícil ter uma companhia, é uma porrada. É uma empresa, você tem que pagar salário. Chega a me dar nervoso só de pensar na produção que precisa ser feita para manter aquelas pessoas.

AB – Você falou do CSI, de que às vezes você precisa mudar de assunto. Quais são as coisas que te ocupam nesses momentos em que você quer mudar de assunto?

PM – Eu sei me divertir com as minhas coisas. Eu tenho uma coleção de vídeos de dança muito grande. Sou um colecionador mesmo. Tenho muita coisa que baixo pela internet, coisas que eu compro e outras que meus amigos trazem para mim. E eu peço mesmo! Então tenho muita coisa para assistir. Quando eu digo que mudo de assunto, é mais em relação às pessoas. Chega uma hora em que eu também tenho que fechar minha porta, ficar quietinho. Mas a dança continua comigo, então já teve final de semana em que assisti dança sábado e domingo sem parar. E não me aborrece, acho ótimo! Posso assistir A Bela Adormecida, depois a Lia… não tem o menor problema. Eu pulo de uma coisa a outra com a maior facilidade (risos). Mas tem a ver com o meu trabalho. Assim, conheço os bailarinos, conheço a história, vejo quem é o diretor artístico da companhia, me interesso por vários detalhes desse universo.

4 comentários sobre “A dança das relações: André Bern entrevista Paulo Marques

E você? O que acha?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s