E o Segundo Caderno se Manifesta!, por André Bern

Por pouco não teria lido a breve matéria sobre Manifesta! (acima), projeto de ocupação do Teatro Cacilda Becker (RJ) (equivocadamente chamado de “festival”), publicada no Segundo Caderno do jornal O Globo na terça-feira passada. Aluisio Flores, parceiro de criação, não me deixou perder essa oportunidade.

Parte da coluna Gente Boa, de Joaquim Ferreira dos Santos, a matéria intitulada “Não é para entender” junta-se ao coro daqueles que repudiam a dança contemporânea na medida em que esta nem sempre se apresenta transparente em suas referências e códigos. Ou seja, persiste aquela velha e gasta noção de que trabalhos artísticos contemporâneos são necessariamente “experimentais”, sinônimos de superficialidade, falta de qualidade e acabamento, ou de inacessibilidade. Em linguagem mais popular, “coisa de maluco” ou “isso até meu filho de 2 anos faz!”.

Bem, nada disso é novidade, mas o fato é que, ao invés de estimular o debate, a matéria revela uma posição claramente sarcástica e de rechaço à dança contemporânea, às manifestações de arte “menos previsíveis”. Estas aspas, inclusive, aludem à uma suposta previsibilidade defendida pelo texto em questão: a de que a dança contemporânea não raro é incompreensível, uma falha imperdoável.

Não menos previsível, infelizmente, é o tom do texto. Idiotizante, refere-se aos possíveis membros da plateia como “amiguinhos” e debocha das explicações “excessivamente filosóficas” dos artistas. Fato é que, depois de um escândalo em maio de 2008, provocado por outra coluna (de Artur Xexéo, na revista de domingo do mesmo jornal), a dança contemporânea tem ganhado cada vez menos destaque no Segundo Caderno. Dança, desde então, resume-se frequentemente a espetáculos de companhias estrangeiras em passagem pela cidade, balé, ou apresentações e estreias das criações de Deborah Colker (pivô da comoção de 2008).

Outro exemplo de matéria controversa foi a capa do Segundo Caderno publicada em 7 de março deste ano, que, entre outras coisas, afirmava que poucos nomes surgiram na cena da dança carioca após a década de 90. Mais indignação por parte de alguns artistas e, em consequência, a reunião do Movimento Dança Carioca.

Mas a pergunta que não quer calar mesmo é a seguinte: por que usar o espaço do Caderno – tão caro e de tamanha visibilidade – para publicar um texto que não propõe nada além de desqualificar um evento de maneira desrespeitosa e pouco fundamentada?

2 comentários sobre “E o Segundo Caderno se Manifesta!, por André Bern

  1. ‎”Quem acha q arte existe necessariamente para ser “entendida” não devia estar escrevendo sobre arte. Incomodar, provocar, criar sensações, gerar reflexão… seja pelas vias do entendimento ou do estranhamento… tudo isso é arte… a visão reducionista da matéria mostra um jornalista doidinho pra fazer sucesso de forma irresponsável” A.B.

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