Lembrando de Frantz Fanon: André Bern traduz texto de Lewis R. Gordon

A partir de um e-mail compartilhado num grupo de coreógrafos e artistas negros, o texto Lembrando de Fanon hoje, 6 de dezembro de 2011 chegou às mãos de André Bern na semana passada. O artista, colaborador deste blog, contactou o autor do texto (escrito originalmente em inglês), que imediatamente lhe concedeu permissão para traduzi-lo para o português. O autor em questão é Lewis R. Gordon, professor da Temple University (EUA).

Confiram o texto a seguir:

LEMBRANDO DE FANON HOJE, 6 DE DEZEMBRO DE 2011, por Lewis R. Gordon

(Tradução de André Bern)

Sofrendo de leucemia e pneumonia, Frantz Omar Fanon viveu seu último dia no que ele chamava de “uma nação de linchadores”. Bethesda, Maryland, EUA era o último lugar em que ele esperava dar seu último suspiro, mas tal foi o curso que a história tomou. Ainda que tenha morrido aos trinta e seis anos de idade, ele viveu uma vida equivalente a, no mínimo, cem anos.

Alguns críticos posteriores quiseram literalmente entendê-lo ao pé da letra, como um homem de seu tempo. Este era um desejo dele, um traço paradoxal de sua personalidade singular. Frequentemente portador de más notícias, este humanista revolucionário não raro preferia estar mais errado do que certo.

Lemos seus livros hoje porque ele transcende seu tempo, mas isso só acontece porque nossa época é também a dele. Ele enxergou, além da Era da Revolução, que a Contra-Revolução era tão negativa quanto a primeira. Então, deparamo-nos com um mundo no qual as condições de escravização são valorizadas, onde a privatização reina sob a falsa pretensão de não estar em posse dos grilhões de uma ainda mais rigorosa subjugação da humanidade. Muitos de nós esquecem que a escravidão é parte integrante do capitalismo, e que o único impedimento neste sentido, no final das contas, reside em seres humanos que se opõem aos lucros obtidos às custas de sua própria sujeição e desumanização.

No mundo inteiro a resposta de muitas pessoas à exploração radicalizada, que deveria ser mais precisamente chamada de “massacre de classes”, tem sido o reforço de valores democráticos sob o título de “ocupação”. O termo é adequadamente fanoniano no sentido de uma consequência lógica da privatização, que engole espaços públicos através dos quais a vida política poderia se manifestar. Se as ruas, as praças, os parques, o interior, a terra, o ar, a água, etc, não pertencem às pessoas, onde, então, encontrar espaços públicos através dos quais se possa articular pontos de vista políticos? A política, em dadas circunstâncias, não se tornaria em si um assunto ilícito?

Fanon advertiu sobre tal consequência do colonialismo, onde o ser humano, na relação de uns com os outros, é degradado num sistema dual no qual para um grupo de pessoas há “eus” e “outros”, enquanto para o outro há o não-domínio dos não-eus e não-outros. Enquanto relações éticas são conferidas aos primeiros, as mesmas são negadas aos últimos na medida em que são reduzidos à categoria de seres sem direito de representação. Para estes, aparecer significa violar o campo da representação legítima. Eles se tornam, em outras palavras, violência.

Através de sua obra recente, Alice Cherki, ex-aluna de Fanon, ao elaborar um retrato da vida e pensamento do mestre, nos lembra que ele detestava violência. Ele a conhecia de maneira íntima, sabia o que significava aparecer no mundo como tal. Ele compreendeu, por exemplo, que embora muitos corpos negros tenham sangrado sob o peso do colonialismo e da escravidão, tenham sido torturados e assassinados lutando pelo direito de existir com dignidade, nenhuma menção à violência seria reconhecida, exceto nos casos de ataques contra aqueles que os perseguiam. É o que permitiu que muitos escrevessem sobre a história da luta pelos Direitos Civis nos Estados Unidos e a luta contra o Apartheid na África do Sul como “não-violentas”. A violência só existiu quando brancos foram feridos ou onde negros exigiram que fronteiras fossem cruzadas na direção da construção de uma sociedade igualitária. Os cães de ataque, cassetetes, mangueiras de incêndio, espingardas engatilhadas, linchamentos, todas essas coisas disparadas contra protestantes negros não foram registradas como “violência”.

O que os negros podiam fazer quando lutar era considerado violência, mas ser atacado pelos brancos e representantes de estados racistas não era? O que alguém podia fazer quando sua aparência era ilícita? Mostrar que não era violento seria inútil.

Basicamente, deparamo-nos com a subordinação da ética às demandas de transformação social. Ser ético exige, no mínimo, mudar o mundo, o que, paradoxalmente, é tratado como um ato anti-ético num status quo racista e colonial. Isso porque, no final das contas, aqueles que são privilegiados pela condição atual sempre se consideram merecedores.

Fanon, assim como Malcolm X, que também nasceu em 1925, continua sendo um desafio para os nossos tempos. Aqueles que esperam que ele seja démodé, deixam escapar um desejo de se esconder de si mesmos: a contínua relevância de Fanon é um reflexo das falhas deles, e de nossas também.

No entanto, Fanon não era pessimista em relação à falha. Para ele, a falha era instrutiva; a mensagem de falha é, em outras palavras, falhar em falhar, transformar a falha em algo a partir do qual não apenas se aprende, mas também se desenvolve, floresce. Compreender nossa falha nos oferece esperança, na medida em que significa, em última análise, que não fomos aniquilados.

Então, conforme este ano marca dois aniversários – um, da morte de Fanon, e o outro, do nascimento de sua homenagem aos condenados da terra – devemos meditar sobre o fim de seu último trabalho, que nos convida a criar novos conceitos e dar início a uma nova humanidade. Ele não nos disse o que essa humanidade era ou deveria ser. Ele nos respeitava suficientemente para que entendesse que a responsabilidade por aquele futuro é nossa, de mais ninguém – o que se coaduna com sua observação em “Os Condenados da Terra” sobre o fato de que cada geração tem que encontrar sua missão, seja para cumpri-la ou trai-la.

Assim sendo, lembrar-se de Fanon e honrá-lo requer superá-lo, dando o melhor que há em nós, o que para muitos é pedir demais, enquanto para outros, muito pouco; mas, de fato, que sorte a nossa, neste momento da história em que tantas forças negativas convergem, talvez ainda ter tempo de fazer o que proverbialmente necessita ser feito!

Lewis R. Gordon escreve extensivamente sobre Frantz Fanon e integra a equipe da Fundação Fanon em Paris. É professor da Temple University (EUA), onde fundou o Centro de Estudos Afro-Judeus. Além disso, atua como professor visitante da University of West Indies, em Mona, Jamaica.

André Bern é artista de dança e performance. Mestre em Artes (UERJ), sua produção artística gira frequentemente em torno de questões identitárias e interdisciplinares, nas fronteiras entre gênero e raça, dança e artes visuais.

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