Leandro Cristóvão se junta ao coro dos felinos em “Miau!”

Convidado a fazer uma primeira contribuição textual neste blog, Leandro Cristóvão – professor de Letras e entusiasta da cena de dança contemporânea e performance no Rio de Janeiro – retoma um artigo de Gustavo Bitencourt (publicado em 2008, no site idança.net) para reivindicar novos espaços de compartilhamento e reflexão na área. Um espaço como se propõe o ctrl+alt+dança. Confiram abaixo:

 

MIAU!, por Leandro Cristóvão

Os gatos pingados. Esse era o título de um texto que li há alguns anos, cujo tema girava em torno do público de dança contemporânea no Brasil. O título é uma metáfora para expressar o quantitativo de espectadores para trabalhos desse tipo. Uns gatos pingados é o que, segundo o texto, vemos nos espetáculos. Naquele momento, fiquei pensando nos motivos de isso acontecer. Ele tem razão, pensava eu. Quase sempre, o público dos espetáculos a que assisto é muito reduzido e, em sua maioria, composto por artistas. Isso, poucos felinos artistas. Em meio à gataria, sempre me sinto meio cachorro, meio macaco, meio jacaré. Olho à minha volta e fico pensando se há outros não-felinos por ali.  Constantemente, não os encontro.

E aí, me pergunto: será que nas vizinhanças dos não-felinos, notícias sobre esses espetáculos têm chegado? Será que não-felinos estão sendo convidados a participar desses encontros? Será que os felinos sentem a necessidade de compartilhar seus trabalhos com outras espécies? Será que os felinos possuem espaço para miar?

Como um não-felino, arrisco dizer que a divulgação, reflexão e discussão dos trabalhos de dança contemporânea na cidade do Rio de Janeiro se dão em núcleos fechados. Ali, os seres de outras espécies, ou pararam por engano, ou foram convidados por seus amigos gatos. Desses núcleos, como o Teatro Cacilda Becker ou o Angel Vianna, ouvem-se apenas miados. Seja na área reservada aos artistas, ou ao público, são raríssimos os latidos, os cacarejos. E não são muitos os miados; são pouquíssimos.

E por que tem que ser assim? Por que motivo, nós, os não-felinos, não chegamos até esses espaços? Será que é porque não entendemos nada? Será que é porque a gente costuma achar que quando o assunto é de gatos, somente os gatos se interessam e entendem seus miados?

Pensando pelo ponto de vista dos gatos, será que eles querem que seus miados sejam compreensíveis? Será que eles encontram espaços nos quais seus miados sejam ouvidos? E mais, será que há espaço para que todos os gatos, de todos os gêneros, de todas as cores, de todas as raças, de todas as partes miem?

Será que tem uns gatos pingados por aí tentando chegar ao ouvido dos outros animais? Sim, acho que sim.

Miau, porque eu também posso miar. Miau, porque também posso entender miados. Miau, porque quero um espaço onde possa saber um pouco mais sobre os núcleos felinos. Miau, porque acho que o Rio de Janeiro precisa de mais gatos, cachorros, macacos, galinhas miando.

Leandro Cristóvão é professor da área de Letras. É mestre em Letras Neolatinas pela UFRJ e doutorando em Estudos da Linguagem pela PUC-Rio. Atualmente coordena o curso de especialização em Educação e Contemporaneidade do CEFET-RJ (Unidade Nova Friburgo), a partir do qual tem estabelecido conexões com artistas emergentes da cena carioca de dança contemporânea e performance.

3 comentários sobre “Leandro Cristóvão se junta ao coro dos felinos em “Miau!”

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