[textos] “Valor de mercado”: parceria com o blog do artista norte-americano Rob List

[Rob List em Natura Morta / crédito da foto: Andrea Mohin / The New York Times]

Em parceria com outro blog, Mirror to the Flower, do coreógrafo e performer norte-americano Rob List, o ctrl+alt+dança passa a publicar traduções de alguns textos postados pelo artista. As traduções ficam por conta de André Bern, colaborador deste blog, que conheceu Rob em 2009, durante o programa de intercâmbio coLABoratório (promovido pelo Festival Panorama).

Para marcar o início dessa parceria, publicamos abaixo “Valor de mercado”, texto postado por Rob List em dez/2010, que certamente ainda contém elementos pulsantes e provocadores de discussões e reflexões. Confiram!

VALOR DE MERCADO, por Rob List

(Tradução de André Bern)

[para ler o texto original em inglês, clique aqui]

É óbvio que as artes performativas – assim como o esporte, a moda, e tudo mais – estão se tornando cada vez mais profissionais, em outras palavras, comerciais. Em toda parte, até nos ditos circuitos alternativos, um grande esforço tem sido feito com o objetivo de propagar o modelo comercial contemporâneo: desenvolver marca, plataforma e imagem, situar-se como produto em algum lugar da vasta paisagem virtual, e acima de tudo: “network” ou “trabalhar em rede”. Afinal de contas, o modelo comercial trata basicamente de uma questão de posicionamento. Onde estou em relação aos meus colegas, e o que posso fazer para ser visto ou ouvido no mercado?

“Empresários de Empreitadas Culturais são agentes de mudança cultural, visionários hábeis que geram receita a partir de uma atividade cultural. Suas soluções inovadoras resultam em empreitadas culturais economicamente sustentáveis que melhoram os meios de vida e geram valor cultural tanto para os produtores como para os consumidores de serviços e produtos culturais.”

Esta relação empresarial entre produtor e consumidor significa, inevitavelmente, que o consumidor se torna o grande árbitro do sucesso; e que, num mundo empresarial, sucesso não está necessariamente atrelado a mérito artístico. Na verdade, praticamente não está. O sucesso está mais ligado à venda agressiva, aos cálculos. Por exemplo, uma estratégia infalível para o dito artista de vanguarda continua sendo a velha ideia de provocação. Podemos ver isso hoje em dia não só nas artes, mas também no esporte, na moda e até na política. Aperte um botão e tenha uma reação; gere um incômodo e tenha uma reação ainda maior.

O que fazemos parece não ser tão importante a ponto de se encontrar um comprador para tal, ou no caso das artes performativas, encontrar um produtor e um público. Infelizmente, com a enorme explosão de artistas de todos os tipos nos últimos trinta anos, tudo se resume a um mercado de compradores em toda parte. Na Holanda, onde moro, o conceito de apoio governamental às artes mudou: de sua origem no pós-guerra enquanto patrocinador das artes independente da opinião pública, às ações mais recentes que se utilizam das artes como ferramenta política, e ultimamente, ao patrocínio exclusivo apenas às artes que se revelem as mais populares no mercado. A implicação reside no fato de que agora o patrocínio deve incentivar e premiar o comercialismo, que gera como consequência o desaparecimento da arte que não tem valor comercial. Para o artista, isso significa adaptar-se ao modelo empresarial e desenvolver uma mentalidade carreirista, ou correr o risco de se isolar e permanecer na obscuridade ao manter-se fiel à sua visão artística independente dos desejos do mercado.

Some-se a isso um quebra-cabeça maior, o do dito padrão artístico na sociedade contemporânea. O que é arte de boa ou má qualidade, e esses termos ainda importam? A relevância de um trabalho é determinada pelo público, pela mídia ou pelas forças do mercado? Como é possível superar a lamentável situação em que parecemos estar, na qual tanto o artista quanto o público estão cada vez mais conscientes da natureza possivelmente arbitrária no tocante a decisões estéticas, e do papel da mídia em perpetuar tradições, sejam mais recentes ou antigas?

Para que se faz arte? Para pagar as contas? Precisamos nos perguntar seriamente sobre nossos motivos e expectativas para, no mínimo, não acabar malsucedidos, envelhecidos e amargos. Como um artista, seja de que linguagem for, pode criar trabalhos de forma independente?

Talvez as palavras “bom” e “ruim” precisem de redefinições. A singularidade dos produtos artísticos, em suas diversas formas, já é, em si, uma qualidade especial nesta realidade empacotada em que vivemos agora. Talvez a relevância da arte seja uma questão mais pessoal do que pública. Pessoal no que se refere ao artista, ao espectador individual. E talvez não gere nenhuma receita.

Caso não gere, talvez seja importante descobrir o que há de enriquecedor em ser um artista a longo prazo, e não necessariamente mensurá-lo a partir dos padrões dos outros ou de nosso contra-cheque. Devemos pensar que temos uma prática, mais do que uma carreira. Uma prática que aprofunda o trabalho, e a pessoa que o realiza também. Isso pode não ser uma proposição economicamente viável, mas tem potencial de ser muito mais gratificante do que dinheiro. Ainda que seja difícil de encontrar, pergunte a qualquer artista “morto-de-fome” – depois de convidá-lo para jantar, é claro!

Talvez não vivamos mais os dias dos heróis originais e solitários, mas isso não significa que eles não possam servir como um exemplo a partir do qual possamos redefinir, ajustar e refletir sobre os nossos tempos.

6 comentários sobre “[textos] “Valor de mercado”: parceria com o blog do artista norte-americano Rob List

  1. Parabéns pela iniciativa.
    O texto é realmente muito instigante e faz refletir bastante sobre como nos posicionamos ou somos posicionados como artistas hoje.

    Um grande abraço,

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