[textos] “Por onde circulamos?”: relato crítico de André Bern sobre o segundo encontro da série

Na sequência da mesa-redonda realizada em torno da pergunta “Como fazemos?”, André Bern compartilha suas impressões acerca do segundo encontro realizado no Centro Coreográfico do Rio em 9/fev. Dessa vez, “Por onde circulamos?” foi a pergunta que guiou os presentes (confira um trecho da conversa no vídeo acima).

EU CIRCULO PARA SOBREVIVER OU A DANÇA PERTO DO OUTRO: UM RELATO-APERITIVO? por André Bern

Alimentado.

Faço questão de iniciar esse relato com um indicativo de como me senti ao sair da mesa do dia 9 de fevereiro. Acredito ser importante e em consonância com todos os que puderam estar presentes, convidados e plateia, numa noite em que a palavra “afeto” foi citada inúmeras vezes. E se não foram tantas assim, peço perdão pela licença poética.

Sim, como já deu para perceber, esse texto não fingirá ser imparcial ou linear. Nem por isso deixarei de propor algumas considerações acerca do que ouvi e senti. Então, eis o exercício: relatar a partir de um território subjetivo (e dá pra ser de outra maneira?) e deixar brotar questões advindas da experiência (não menos subjetiva) de ouvir Rodrigo, Carla, Dyonne, Denise e a plateia onde eu estava.

Depois de uma breve apresentação de cada um dos convidados (no esquema “eles por eles mesmos”), que nos deu a oportunidade de saber de onde, de que territórios estes vêm e, portanto, de que lugares falam – algo fundamental para uma mesa que se organiza em torno da pergunta “Por onde circulamos?” – surgiu um primeiro questionamento sobre o fio que aproximava os integrantes da mesa. “É uma mesa social?”, alguém deixou escapar, provavelmente por causa dos trabalhos de Rodrigo Maia e Carla Strachmann, respectivamente, com os projetos Fronteiras e Entrando na Dança. Dyonne Boy, mediadora da mesa, rapidamente se opôs ao rótulo, explicando que lhe interessava partir da ideia central da mesa, a de circulação, e do encontro e relação com o outro que tal circulação pode promover.

É fato que afirmar uma proposta enquanto projeto social necessariamente gera divergências e, inclusive, muitos profissionais da dança vão “torcer o nariz”. Chega rapida e, muitas vezes superficialmente, a conclusão de que projetos sociais abdicam de um certo cuidado essencial com questões estéticas e artísticas em prol da dita formação de plateia ou cidadã. Rodrigo defende uma ideia de complementaridade entre os âmbitos social e artístico/criativo. Um território onde técnica e afeto são, de antemão, co-existentes. Nesse sentido, Denise Stutz acredita ser possível informar, não formar. “Eu fui formada pelo mundo”, numa relação de comunicação e troca com o outro, os tantos artistas que “passaram pelo meu corpo”, a senhora da plateia de Vila Kennedy com quem realizou um duo num de seus espetáculos…

Este não seria o único momento mais pedregoso da noite, que apenas começava. A diversidade de percursos dos profissionais que compunham a mesa e a presença de uma plateia bastante participativa funcionaram como combustível para que a conversa se estendesse animada por mais de duas horas.

Ainda durante sua apresentação, Denise colocou em pauta a inevitável pergunta, talvez anterior à que alimentava a própria mesa, “Por que circulo?”. Na experiência da bailarina (de vários presentes na plateia e, acredito, dos leitores desse texto também), ela circula para sobreviver artistica e financeiramente, o que nos remete ao fato de que muitas vezes trabalhamos para poder manter-nos produzindo como criadores; sem contar os compromissos financeiros inerentes a qualquer indivíduo, independentemente de sua profissão. Denise entremeia experiências profissionais e pessoais num discurso extremamente articulado e honesto. Fala, por exemplo, de como a parceria com Felipe Ribeiro (presente na plateia) tem sido frutífera e inspiradora para ela. Foi um dos momentos que mais me emocionaram, dado que raramente vemos artistas da dança expressarem tão veementemente sua gratidão pela contribuição dos parceiros.

Nesse sentido, é importante dizer que a circulação de artistas também frutifica na forma de parcerias. É circulando que artistas se encontram, inspiram movimentos, eventos e pessoas. Como no caso de Dyonne, cuja circulação do Jongo da Serrinha pela cidade do Rio de Janeiro promoveu seu encontro com Mestre Darcy, músico fundador do grupo. Um encontro que, para ela, fez com que um novo Rio de Janeiro se descortinasse. “Para mim, a Serrinha não é um lugar social nem de folclore. É um lugar de gente inventando processos econômicos, artísticos (…) Não foi uma ONG que criou um grupo; pelo contrário, esse grupo gerou uma ONG, uma escola”.

“A gente é construído pelos lugares onde circulamos”, frase de Denise, parece servir de “deixa” para que Dyonne, minutos mais tarde, perguntasse a Carla sobre como se dá a aproximação com quem não costuma ver dança no contexto do Entrando na Dança. Entre exemplos de pessoas que vão assistir os espetáculos porque viram uma chamada na TV, Carla fala de experiências que foram marcantes na trajetória dela à frente do projeto, braço do Festival Panorama, que leva apresentações de companhias cariocas de dança contemporânea a diversos espaços do subúrbio da cidade. Experiências como a de uma senhora que não parava de chorar e dizer “Isso me lembra Nietzsche!” após assistir a uma apresentação da bailarina Paula Maracajá numa prisão.

Carla ainda reflete sobre o que para ela é um equívoco: a mera distribuição de ingressos gratuitos como estratégia de formação de plateia (olha ela aí outra vez!). Segundo ela, o mais importante é promover o acesso cada vez mais amplo da população à dança. Se as pessoas vão gostar ou não dos espetáculos, é outro assunto.

Carla admite que a equipe do Entrando na Dança equilibra cautelosamente espetáculos “mais hardcore” e aqueles cuja estética se revela mais acessível ao grande público. A ideia é não afastar em definitivo o público com uma apresentação a que ele supostamente não estaria preparado para assistir.

Ainda que compreenda o fluxo de raciocínio apresentado por Carla, cuja mais nobre motivação é arregimentar públicos maiores às apresentações de dança contemporânea da cidade, me faço algumas perguntas: como podemos definir o que este ou aquele público está preparado para ver? Ou melhor: que outras estratégias (que não necessariamente a distribuição massiva de ingressos gratuitos ou a pré-seleção de espetáculos mais ou menos “difíceis” para este ou aquele público) podem ser elencadas pelos programadores/curadores quando o que está em pauta é aproximar-se do público não frequentador de dança contemporânea? Será que, na outra ponta da engrenagem, os criadores de dança precisam ser menos auto-indulgentes (como sugere alguém da plateia) e pensar mais (ainda mais) no público que vai assistir seus espetáculos? E, talvez mais importante, o que significa esse “pensar mais no público”? Atender suas demandas e necessariamente ceder aos modismos?

E olha que nem cheguei à discussão sobre os editais, os quase-sempre-demonizados-editais, e já estourei meu limite de páginas para o relato!

Enfim, espero que este texto sirva de aperitivo para aqueles que passarão a frequentar as próximas mesas, e de sobremesa para quem já foi às duas primeiras. Que a cozinha se mantenha produtiva e fumegante!

Aos próximos pratos e menus!

Um forte abraço,

André Bern

Um comentário sobre “[textos] “Por onde circulamos?”: relato crítico de André Bern sobre o segundo encontro da série

E você? O que acha?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s