[textos] Coletividade e colaboração: Aline Bernardi escreve sobre indícios do ser coletivo

[Leve, espetáculo do Coletivo Lugar Comum (PE) / fonte: ivanalampe.blogspot.com.br]

INDÍCIOS DE UM ARTIGO SOBRE SER COLETIVO, por Aline Bernardi

No laço do compasso

Construo o passo

 a l i n e   b e r n a r d i

Como se aprende a trabalhar junto? O que precisamos para trabalhar e pensar no “estar junto”? O que me leva a querer trabalhar em coletivo? O que isso me alimenta e me move? Que tipo de reflexo social essa motivação tem na minha vida pessoal? Onde o individuo encontra o coletivo nessa motivação? Qual é o impulso para buscar o “estar junto”, enfim, pra se estar em relação num coletivo? O que é estar em relação?

A partir do depoimento de duas artistas do Coletivo Lugar Comum de Recife/PE [1] e da minha própria vivência como co-fundadora e integrante do coletivo Encontros Sutis [2] no Rio de Janeiro desejo levantar questões sobre o “ser coletivo”, sobre a prática de construção em cooperação, sobre o trabalhar junto COM os outros. Apontamentos dos artigos de Nirvana Marinho [3] e de Lucía Russo [4], teóricos como Piaget [5] e André Comte-Sponville [6], e outras vivências em coletivo nas quais estou envolvida, como o “Praticas do Comum” [7], “DUAL” [8] e “Corpo In Verso” [9] me ajudaram também na orientação dessa minha tentativa de levantar questionamentos.

“Construir uma rede era possível porque encontramos pessoas que acreditaram que podiam fazê-lo em real horizontalidade e intercâmbio.” (Lucía Russo)

A afinidade de propósitos é, na fala e na vivência de muitos que praticam o “criar e conviver o coletivo”, um fio condutor para se construir um novo pensamento de ação. Micheline Torres [10], no encontro de novembro desse ano do “Práticas do Comum” no Teatro Glauce Rocha, afirmou que a união por afinidades é potencializadora para a promoção de ações. A amizade nos encontros em coletivo se configura, portanto, como motivo ou como resultado de uma ação coletiva, e essa união reverbera em cooperatividade.

“Essa história da afinidade é um ponto muito forte. A gente gosta muito de estar perto, gosta muito de colaborar com o processo do outro. Quem está mais perto e se identifica com a proposta do outro vai colando, vai ficando perto. Afinidades estéticas mesmo. Afinidades de apreciação de coisas que a gente assiste, que a gente curte. Somos todos amigos, isso é verdade.” (trecho do depoimento do Coletivo Lugar Comum Recife)

Mas o que é agir em cooperação? Existem qualidades de afinidade? Afinidade é somente semelhança, ou comporta as diferenças também?

“(…) é a procura da reciprocidade entre os pontos de vista individuais que permite à inteligência construir este instrumento lógico que comanda os outros, que é a lógica das relações.” (Piaget)

Fazer da diferença o ponto do encontro colaborativo ou se valer das semelhanças pra fortalecer as escolhas é o caminho que defendo no que Piaget vai chamar de a lógica das relações. Sentir um coletivo pulsando através de suas individualidades é por demais renovador e é nesse pulso que acredito ser possível redimensionar os diálogos, para que dessa retroalimentação floresça a realização, seja ela de caráter estético, político e/ou social. O sentido de elaboração e re-significação do laborar coletivamente me faz enxergar o nascimento de um possível e real sentido de cooperação.

“Entendendo que a produção e difusão do conhecimento se reafirmam diante de qualquer tentativa de política cultural, ser um artista colaborador é ser um artista contemporâneo.” (Nirvana Marinho)

Colaborar pode ser uma expressão do desejo de se aproximar de uma relação e das qualidades de afinidades que essa relação pode apresentar; estar em coletivo é praticar um fazer-colaborativo, um fazer com o propósito de ser em si o meio do caminho de um percurso. A prática em coletivos propicia um acesso mais detalhado às semelhanças e diferenças que constituem as relações. Num dos coletivos de que faço parte, o Encontros Sutis, a maneira como as decisões são tomadas nos faz perceber com maior clareza nossas afinidades: abrimos uma roda de decisão falando como estamos nos sentindo naquele dia, depois levantamos o tema a ser conversado e escutamos a opinião de todos em relação ao tema, e em cima de todas as opiniões identificamos os traços de afinidades que nos ajudam a chegar num acordo de como desejamos agir.

Acredito que o percurso dentro de um coletivo vai firmando sentido no próprio fazer-colaborativo; o sentido de fazer em coletivo alimenta e afirma os passos como individuo tanto quanto o ser singular compõe o desenho de cada “ser coletivo” que se constitui. O fazer em coletivo é, em si, o ato político talvez mais concreto de criação e afirmação de realidades. E a fonte de alimento do fazer em coletivo é, a meu ver, questionar-se incessantemente em suas escolhas. Essa constante atitude e observação da escolha, de um posicionamento no “ser coletivo”, me possibilita sentir e acreditar que a confiança de cada laço está no ato de enlaçar.

O fazer coletivo, entretanto, não é um conceito, é uma prática. Só podemos nos aproximar de um fazer coletivo nos colocando em ação no “ser–coletivo”, isto é, nos disponibilizando ao coletivo e a esse fazer através do fazer!!! Isso pode começar a desenhar e a configurar uma nova forma de lidar com a criação e com as organizações sociais. Isso pode refletir numa nova postura de relação com o mundo, seja esse mundo seu mundo interno ou a comunicação deste com o meio que se apresenta no seu entorno. A verdade não pode ser colocada de maneira fixa e deve ser mobilizada a cada passo dado junto.

“Não podemos pensar como pura singularidade desde o momento em que nos encontramos arremessados no mundo, existindo sempre com outros. Ser é sempre ser singular-plural. É uma tentativa através da dança, entendida como uma atividade produtora de conhecimento (artístico, existencial, político, etc.), de revelar, evidenciar, expressar, pôr em cena, aquilo que acontece com os corpos hoje em relação a seu estar – junto com outros no mundo.” (Lucía Russo)

Sobre os nomes citados no artigo:

[1] Coletivo Lugar Comum: coletivo de artistas da cidade de Recife (PE), formado por bailarinos, professores de literatura, músicos, iluminadores, com 4 anos de existência. Atualmente têm um espetáculo em circulação, “Leve”, e estão em processo de criação do novo trabalho, que se chama “Segunda Pele”; além disso, estão produzindo algumas performances em espaços alternativos da cidade de Recife. Possuem uma sede no Recife Antigo.

[2] Encontros Sutis: coletivo de artistas da cidade do Rio de Janeiro (RJ), formado por bailarinos, atores, músicos, terapeutas, professores, produtores, poetas, palhaços, pesquisadores, fotógrafos, permacultores, que encontram sua convergência na paixão e na motivação em praticar e viver o contato-improvisação. Com 2 anos de existência, atuam no fomento e divulgação do contato-improvisação no Rio de Janeiro.

[3] Nirvana Marinho: doutora em Comunicação e Semiótica (PUC-SP, 2006), colaboradora do portal idanca.net e coordenadora do Acervo Mariposa.

[4] Lucía Russo: bailarina, coreógrafa, gestora, professora e pesquisadora argentina. Atualmente participa do c.a.s.a colectivo artístico.

[5] Jean Piaget: considerado um dos mais importantes pensadores do século XX. Defendeu uma abordagem interdisciplinar para a investigação epistemológica. Fundou a Epistemologia Genética, teoria do conhecimento com base no estudo da gênese psicológica do pensamento humano.

[6] André Comte-Sponville: filósofo materialista, racionalista e humanista, nasceu em Paris em 1952. Propõe uma metafísica materialista e uma espiritualidade sem Deus; para ele, filosofar é “pensar a sua vida e viver o seu pensamento”.

[7] Práticas do Comum – Dança, Comunidade e Política: encontros mensais realizados durante o segundo semestre de 2011 no Teatro Glauce Rocha, proposto e coordenado por Flávia Meireles, e produzido/programado por um grupo de artistas do Movimento Dança Carioca. Toda a programação foi pensada com a idéia de promover um ambiente de conversas a fim de resgatar e inventar o que pode significar o COMUM – público, compartilhado, político.

[8] DUAL: formado pelas artistas Duda Freyre e Aline Bernardi com a proposta de investigar, pesquisar e criar a partir, através e dentro do universo do contato-improvisação.

[9] Corpo In Verso: núcleo de pesquisa em dança formado por 6 bailarinos interessados em pesquisar a criação coletiva. Atualmente estão no processo de montagem do seu primeiro espetáculo, “Há De Vir”.

[10] Micheline Torres: bailarina, coreógrafa e performer, atualmente desenvolve o projeto “Meu Corpo é Minha Política”, apresentado em 18 cidades do Brasil e 8 países. Integrante do coletivo internacional Sweet and Tender Collaborations.

Referências:

COMTE-SPONVILLE, André. “O Amor”. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

DE LA TAILLE, Yves. “Teoria Psicogenéticas em Discussão”. São Paulo: Summus, 1992.

MARINHO, Nirvana. “Colaborar significa: estética, política, sociedade, arte”. Colaboração para Jornal O Povo – Caderno sobre projeto coLABoratório, 2007.

—-. “Provocações de uma Radiografia”. Núcleo de Artes Cênicas do Instituto Itaú Cultural, 2008.

RUSSO, Lucía. “entre o ‘eu’ e o ‘nós'”. Publicado no RSD: Red Sudamericana de Danza, 2010.

*Este artigo é resultado da disciplina APTEC – Aperfeiçoamento Técnico – ministrada por Flavia Meireles no segundo semestre de 2011, dentro do programa de gradução em Dança da Faculdade Angel Vianna.

Aline Bernardi é bailarina, atriz, poetisa e professora de dança com foco de pesquisa em improvisação. É co-fundadora e idealizadora do coletivo Encontros Sutis – grupo fomentador de contato-improvisação no Rio de Janeiro.

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