Que as saídas sejam múltiplas + Cornaca: André Bern entrevista Alice Ripoll (RJ) sobre a circulação de seu programa duplo

[Fernando Klipel, Alice Ripoll e os bailarinos da Cia. R.E.C. / foto: divulgação]

Uma das coreógrafas contempladas com o FADA 2011 – Fundo de Apoio à Dança (SMC-RJ) – Alice Ripoll realizou uma circulação de dois espetáculos no Rio de Janeiro. Que as saídas sejam múltiplas, em parceria com Fernando Klipel, e Cornaca, com a Cia. R.E.C. (Reação em Cadeia) foram apresentados num programa duplo e integrado, sem intervalos.

André Bern, colaborador deste blog, conferiu uma das apresentações da circulação (no Centro Coreográfico do Rio de Janeiro) e propôs a Alice uma breve entrevista via e-mail. A troca de mensagens entre os dois está embaixo, na íntegra. Monica da Costa, outra colaboradora do ctrl+alt+dança, também participou, sugerindo tópicos a serem abordados na conversa.

 

André Bern – O que está em jogo quando você decide apresentar os dois trabalhos um após o outro, sem intervalo, num programa único?

Alice Ripoll – Acredito que os dois trabalhos juntos estabelecem um diálogo, tanto na linguagem de movimento quanto na temática. Em cada um podemos perceber a contribuição das diferentes parcerias, de direção e interpretação. Achamos que o intervalo não seria necessário, a transição de um trabalho para o outro se dá de uma forma natural.

AB – Fale mais sobre esse diálogo tanto em termos de linguagem de movimento quanto de temática.

AR – Quando começamos a criar o “Cornaca” estávamos finalizando o processo do “Que as saídas…”, no qual a Juliana [Medella] também participou como ensaiadora. Inclusive, a primeira vez que fizemos o trabalho fora da sala de ensaio foi uma apresentação pros meninos do R.E.C., que na época eram alunos da Juliana no PróSaber [ONG]. Eles foram as primeiras pessoas que viram. Então, a pesquisa de movimento – de contato, encaixes corporais –  estava muito viva em nós, diretoras, na época da criação do “Cornaca”. E cada corpo responde de formas muito diferentes a este tipo de pesquisa; aí entra a identidade de cada trabalho. Por exemplo, tem um duo no “Cornaca” em que dois bailarinos pesquisam, através do contato, a linguagem do “King Tut”, que é uma técnica dentro do hip hop. E no que diz respeito a temática, o contato acaba remetendo às relações humanas, que são exploradas de forma diferente em cada trabalho, mas estão presentes nos dois.

AB – Como “Que as saídas…” tem se desenhado a partir de cada apresentação, de cada plateia? Que mudanças, alterações, transformações, o trabalho vem incorporando ao longo de sua trajetória? A parceria com Fernando Klipel produziu outros desdobramentos além deste trabalho?

AR – Bom, vou responder de acordo com a minha percepção. Talvez o meu parceiro Fernando Klipel pense diferente. Eu não observo uma grande interferência da platéia neste trabalho, pois ele acontece dentro de um universo de profunda conexão entre nós, os intérpretes. O trabalho se desenvolve exatamente neste ponto, uma vez que absolutamente todos os movimentos se dão através do contato: em cada passo, cada gesto, dependemos um do outro, construímos tudo juntos. Então no momento da cena, essa parceria é o que mais se faz notar para mim. O trabalho não sofreu nenhuma grande alteração desde que foi criado. O que transforma é o fato de a cada repetição nossos corpos estarem mais “conhecidos”, e isso influencia o fluxo e nos proporciona liberdade para brincar com velocidades, pequenas surpresas e sensações novas. A nossa parceria ainda não produziu outros desdobramentos.

AB – Você diz que a cada repetição seus corpos se tornam mais “conhecidos”. Em que medida isso também poderia funcionar “contra” o trabalho?

AR – O fato da intimidade entre os corpos aumentar, a meu ver, só contribui neste trabalho. Mas existe um mistério em torno da repetição; acho que todos que trabalham com dança já passaram por isso. Às vezes ficamos um tempo sem ensaiar o trabalho, e de primeira ele sai maravilhoso. Outras vezes precisamos repetir exaustivamente para que esta sintonia apareça. Porque essa sintonia se dá também em outros níveis de conexão, mais sutis, que estão fora do nosso controle.

AB – Como aconteceu o encontro com os bailarinos de “Cornaca”? O que os leva (você, Juliana Medella e eles) a assinar como Cia. R.E.C. (Reação em Cadeia)?

AR – Tudo começou há uns cinco anos, quando a Juliana Medella foi convidada pelo Instituto PróSaber a dar aulas de dança contemporânea para uma turma de jovens. Depois, a convite da Juliana, eu entrei no projeto para dar aulas de videodança. Em 2009, nos desvinculamos da ONG e nos tornamos um grupo independente – R.E.C. – e criamos o trabalho “Cornaca”.

AB – Como vocês se organizam internamente enquanto companhia? Como lidam com as possíveis hierarquias: de quem cria, executa, assina? Como dialogam as diferentes formações, expressões e genealogias: a dança de rua e a dança acadêmica, a Zona Sul e o subúrbio, a afro-descendência e a euro-descendência? Que estranhamentos, tensões e fertilidades emergem?

AR – No caso da criação do trabalho “Cornaca”, eu e a Juliana fazíamos proposições de improvisos e os bailarinos criavam a movimentação. Depois nós íamos limpando as cenas, selecionando, etc. As decisões sobre a maneira de funcionar do grupo (como quantidade de ensaios, as apresentações que fazemos) têm sido tomadas coletivamente. As diferentes formações contribuem para que o nosso encontro seja bem criativo; inclusive, um dos nossos desejos para o próximo trabalho é justamente se aprofundar nas qualidades de movimento e interesses específicos de cada um, uma vez que o “Cornaca” foi um processo construído muito em cima do grupo, isto é, do que podemos fazer juntos. Acredito que qualquer diferença sempre tem a somar, fazer com que a gente conheça novas pessoas, novos estilos de dança, novos lugares.

AB – O que o encontro com cada contexto, com Fernando Klipel e com os bailarinos da Cia. R.E.C., promove? Como a sua dança contemporânea se constrói a partir desses encaixes, parcerias?

AR – Os dois encontros são parcerias muito importantes pra mim, onde eu me desenvolvo e experimento possibilidades criativas. São uma grande fonte de aprendizagem. No encontro com o Fernando, a criação fluiu de uma forma muito leve. Nós tivemos um entendimento corporal imediato e a linguagem do trabalho foi se desenvolvendo espontaneamente. Foi e ainda é um encontro onde sigo me desenvolvendo como intérprete, e juntos vamos descobrindo novas maneiras de estar em cena. Com os bailarinos do R.E.C. exercito constantemente o meu olhar de fora, de como perceber e instigar em cada um as suas possibilidades expressivas e de se movimentar. Como estamos em constante transformação, e estamos atentos a isso, este trabalho não acaba nunca.

Para quem ainda não conferiu os espetáculos, aí vai uma dica: o programa duplo integrará a ocupação do Teatro Cacilda Becker (RJ) – Dança pra Cacilda – e será apresentado entre 18-20/mai e 25-27/mai.

Um comentário sobre “Que as saídas sejam múltiplas + Cornaca: André Bern entrevista Alice Ripoll (RJ) sobre a circulação de seu programa duplo

E você? O que acha?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s