[textos] I Encontro CURIÔS: Adriana Barcellos revive experiência com performance de Italmar Vasconcellos em penúltimo relato da série

Penúltimo relato crítico da série dedicada ao I Encontro CURIÔS – Rede de Nov@s Coreógraf@s Negr@s em Dança Contemporânea – “A intimidade poética de Italmar” é um exercício de re-acesso de Adriana Barcellos à experiência promovida pela performance de Italmar Vasconcellos, intitulada … o cultivo da intimidade que me agrada. Confiram abaixo:

 

[Italmar Vasconcellos em … o cultivo da intimidade que me agrada / foto: Marina Alves]

A INTIMIDADE POÉTICA DE ITALMAR, por Adriana Barcellos

Ao fim do espetáculo de Italmar Vasconcelos, … o cultivo da intimidade que me agrada, demorei um pouco para sair do lugar onde estava. Procurei seus olhos e, com um abraço profundo e sentido, pronunciei um “obrigado” que já trazia uma delicadeza desvelada por sua alma em movimento.

A intimidade proposta por ele passou e passou por faces da vida, e por que não dizer, por faces de muitas vidas. A religiosidade, a infância, o corpo, o cheiro, a voz, construções arcaicas que pertencem à história da humanidade. Vi Italmar, crianças, mulheres e velhos, em vivências, dúvidas e sonhos. Vi o artista que se desnuda em sua fala e seu fazer; que constrói vidas, novas possibilidades, e traz novas matizes de cor às realidades comuns e diárias. É lindo perceber esse universo pessoal, íntimo, “(…) com todas as quinas e cantos (…)”[1] que fazem parte da natureza humana, com o qual o artista vive e convive sem negociação, em obra de arte.

Estava com uma folha de alecrim na mão (escolha da oferta na entrada do espetáculo), que levava ao nariz várias vezes e que parece ter despertado meus sentidos e percepções para compartilhar a intimidade de uma criação. A cena inicial era um misto de objetos e desenhos espalhados pelo chão e pelo espaço. Muitos deles me chamaram a atenção: um pano vermelho pendurado, um porta-retrato sem retrato, desenhos no chão: do Corcovado com o Cristo Redentor, de um morro com muitas casas, igrejas e pipas.

Ah!! As pipas… Relacionei ao subúrbio do Rio de Janeiro, subúrbio da minha infância, onde me encantava com o céu pontilhado de pipas que vazavam o horizonte.

Havia outros objetos: um pão, um copo vazio, um cordão e o símbolo do infinito. Mas as escolhas se fazem muito antes de chegarem à consciência, e assim como cada objeto teve um significado para Italmar em seu processo, tiveram significados diferentes para mim e para cada pessoa presente naquele espetáculo. Usando a imaginação, o artista não apenas constrói as imagens, mas as amplia, dá novo significado e as deforma abrindo uma fresta para novos usos e sentidos.

Depois de caminhar pelo cenário-instalação com o restante do público, escolhi um lugar e sentei. Escolha aleatória e feliz.

Estava de frente para as janelas do loft (um dos espaços de ensaio e cena do CCO [2]) e avistei um entardecer com o som do silêncio no ar. Sentada perto da janela uma mulher permaneceu com os olhos fechados. Fiquei divagando sobre o que ela pensava. Havia um ‘click’ ao fundo, de máquina fotográfica, e pensei se ela construia imagens nesses intervalos de tempo.

Italmar surgiu no espaço, corpo esguio, que passeava pelo ambiente em movimentações múltiplas. Não havia estética definida, ele utilizava o potencial do seu corpo sem se prender a formas: subia, descia, rolava, movimentava seus braços e seus quadris sem limitações.

Naturalmente tendemos a categorizar tudo o que nos cerca. No movimento acabamos classificando em manifestações expressivas e artísticas, em escolas e estilos. Não deveria ser assim se pensássemos e vivêssemos a liberdade e autonomia de nosso corpo. O movimento pertence primeiro ao corpo e ao ser. Depois de executado, repetido e completado com sentidos múltiplos cai no gosto, na representação e no enquadramento. Com esse hábito, ou mau hábito, vi a capoeira e vi religiosidade, vi humanidade, energia e matéria. Vi o corpo de Italmar ser revolvido por muitas imagens e estas imagens me alcançaram.

Parecia haver tempos históricos, tempos de vida, tempos percorridos, vivenciados em cada espaço e em cada elemento cênico-vivencial. Todo o movimento do corpo alcançou a voz, surgindo um canto… quase prece. O movimento da voz reverberou no corpo, e os gestos das partes passeavam por sua voz. Com a religiosidade tocada, Italmar voltava à matéria e colocava uma fotografia antiga no porta-retrato. Presença que se estabelecia no vazio inicial. Afeto que aflorava além dos movimentos corporais.

Fechando as cortinas, Italmar modificava o espaço. A luz esvaia-se e a escuridão chegava. Em ritual, aconteciam movimentos, gestos, trocas de roupas, trocas de luz e de emoções. Italmar se transformava em uma sombra extremamente curiosa, onde se perdia o gênero corporal e despertava-se a essência do imaterial. Numa brincadeira, a escuridão surgia e fugia deixando rastros de luz, rastros de caminhos, pontilhados no espaço… céu estrelado.

Na delicadeza compartilhada por Italmar, com o cheiro de alecrim, luz do entardecer, cantos e um corpo carregado de memórias e de afetos, pude experimentar emoções, sensações e imagens; momento generoso de desvelamento de uma intimidade artística e humana.

O agradecimento citado no início do texto se refere a estas experiências que passaram a me pertencer um pouco.

 

Notas:

[1] Kast, V. A Dinâmica dos Símbolos: fundamentos da psicoterapia junguiana. São Paulo: Loyola, 1997.

[2] CCO – Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro.

 

Adriana Barcellos é Mestre e Doutoranda em Artes pela UNICAMP, onde pesquisa o processo de criação em dança relacionado à Psicologia Analítica de Jung. Atuou como bailarina, preparadora corporal e criadora em companhias profissionais de dança do Rio de Janeiro. Desenvolve trabalhos de dança-educação na rede pública de ensino.

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