[textos] Linguagem, corpo e política: André Bern e Leandro Cristóvão dialogam sobre a performance “Passificadora”

[Passificadora, de André Bern, no congresso internacional Queering Paradigms 4 / foto: Aline Macedo]

Comunicação apresentada no congresso internacional Queering Paradigms 4 (CCMN/UFRJ) em 28/jul, “Linguagem, corpo e política: um diálogo a partir da performance Passificadora” é fruto – como o próprio título já indica – de um compartilhamento entre o artista André Bern (colaborador deste blog) e o professor de Letras Leandro Cristóvão (que eventualmente também faz colaborações no ctrl+alt+dança). Nas semanas que antecederam o congresso, os dois trocaram alguns e-mails e decidiram por apresentar no evento a sequência de mensagens na íntegra, conforme vocês podem conferir nesta postagem.

 

A propósito, André volta a apresentar Passificadora amanhã (4/dez), no evento Por uma UFRJ para Todxs: Identidades LGBT no Ensino Superior. Será uma participação fora da programação oficial, agendada para a Reitoria da UFRJ (Campus Ilha do Fundão), às 14h.


LINGUAGEM, CORPO E POLÍTICA: UM DIÁLOGO A PARTIR DA PERFORMANCE PASSIFICADORA

por André Bern e Leandro Cristóvão

[Leandro] Passificadora é uma performance. Estou certo? Ao afirmar isso, estou consciente da multiplicidade semântica da palavra performance. Ela está no senso comum. Geralmente, quando se quer referir que alguém fez alguma coisa que ou escape, ou intensifique suas comuns atitudes e comportamentos, diz-se que esta pessoa fez uma performance. “Adorei sua performance, Fulano.” Minha percepção dessa peça (a Passificadora), entretanto, é outra. Meu olhar não é aquele que a aproxima da intensidade e do escape dos comportamentos. Percebo-a como uma performance, isto é, como uma estilização de um corpo que diz. Por um acaso, esse corpo está posto numa cena (numa cena artística, digo), ou seja, num (ainda que bem dessacralizado) “palco”. Esse corpo diz nesse “palco” coisas que outros corpos poderiam dizer na rua, em casa, na escola (tais espaços também aqui entendidos como palcos; diferentes do palco em que se apresentou Passificadora, mas palcos). Não diriam o mesmo, decerto, uma vez que se estilizariam a partir de outros referenciais. Mas diriam. O que você disse?

[André] Sim, Passificadora é uma performance cênica na medida em que envolve a minha presença (como aquele que propõe ações) e a do público (que consente em assistir/participar delas). Essa relação independe do palco; embora, obviamente, o lugar onde se apresenta uma peça informa e “contamina” todos os elementos que a compõem. Gosto de pensar que performar é propor um encontro no qual compartilho algumas questões: no caso de Passificadora, sobre gênero, sexualidade, subjetividade e sociedade. O que eu disse?, você pergunta. Acho que não consigo ser tão preciso assim, uma vez que a minha fala se completa com a do público. Então, qualquer esboço de resposta a essa pergunta aqui fica incompleto. Inclusive, pensando nesse momento em que escrevo, creio que falar sobre performance implica sempre em esboçar rascunhos de respostas, apresentados sob uma contínua emergência de atualização. Daí, a decorrente incompletude.

[Leandro] Vou propor um encaminhamento delineado pela percepção do conceito de performance trazido pelos estudos linguísticos, sobretudo aqueles que envolvem a área da Pragmática. Há uma discussão pulsante, nesse âmbito, sobre o caráter performativo que toda produção linguageira possui. Essa discussão, como aponta Pinto (2007), foi inaugurada, no âmbito da Filosofia da Linguagem, por John Austin. Para este autor, em seus primeiros escritos, a linguagem se dicotomiza entre atos de fala que são ora constativos, ora performativos. Para uma apresentação rápida e rasa, basta dizer que os primeiros referem-se a enunciados que constatam, verificam, descrevem uma dada realidade (“Essa casa é verde”); enquanto os segundos, os performativos, relacionam-se àqueles enunciados que criam novos status quo, ou seja, com tais enunciados faz-se ao dizer (“Declaro-o culpado!”). Uma visão performativa radical da linguagem, que é a proposta por Pinto (2007), postula o abandono da dicotomia constativo/performativo em prol do entendimento de que falar é, sempre, fazer. Segundo a autora, “definir a própria linguagem como performativa (…) traz à tona a ideia de que todos os enunciados, todos os atos de fala, tudo o que dizemos faz” (p. 2). Judith Butler, autora que será recorrentemente citada durante os dias do Queering Paradigms 4, é uma das teóricas que se apropriará dessa visão radical da linguagem como performativa, para propor que a linguagem faz o gênero. Diga-me lá: você “consta” ou “faz” em Passificadora? Em constando, que realidade você descreve, verifica? Em fazendo, o que acha que seu dizer pode fazer? Tenho minha visão sobre isso, mas quero, primeiro, saber o que você pensa a respeito.

[André] Interessante essa discussão em torno de um possível abandono da dicotomia entre “constar” e “performar” em prol de uma noção de fala que em si já se coloca enquanto ação. Acredito que seria um tanto pretensioso de minha parte supor que Passificadora descreve alguma realidade – e já fico pensando que a própria possibilidade constativa também o é. Quando entendo o que faço como performance, é justamente nesse sentido, de uma proposta de fala que em si mesma se concretiza em ação. Não sei o que esse dizer/fazer pode acionar, disparar em quem compartilha tal momento comigo. Esse talvez seja o princípio que me lança às próximas apresentações: descobrir mais pistas sobre a potência desses encontros. Sei mais sobre as motivações que me levam à performance; sei mais sobre o que cada apresentação pode fazer comigo. Até me surpreendo ao escrever isso, mas é verdade: sei um pouco mais sobre o que se passa em mim a cada vez, mais do que em quem me vê. É claro que percebo a densidade daquele momento de encontro cênico/performativo com as pessoas. Sei das mais diversas re-ações: choro, cumplicidade, rejeição, estranhamento, encantamento, identificação; até indiferença, acho. Guillermo Gómez-Peña afirma que sua tarefa enquanto performer é provocar perguntas irritantes (“Eu não procuro por respostas” (p.24)). Eu compartilho dessa opinião. No entanto, ainda segundo Guillermo, “outros que são mais bem treinados – ativistas e acadêmicos – vão ter que lidar” com a abertura da caixa de Pandora promovida pelo ato performativo. Obviamente, não podemos tomar esse trecho do livro de Guillermo como uma afirmação de que nós artistas fazemos, enquanto vocês, acadêmicos, pensam sobre. Eis outra dicotomia que me parece um tanto inválida. Fazer implica pensar: tanto o que se deseja propor enquanto ação (a priori), como durante a mesma, no encontro (muitas vezes, embate) com o público. Preocupa-me uma noção de que arte e academia se configuram como pólos opostos, quando a prática diz exatamente o contrário. Há bastante tempo existe um trânsito de artistas na direção da universidade em busca de interlocuções mais potentes e diferenciadas. E, na outra via, a universidade nunca foi inteiramente indiferente à arte. No entanto, a provocação de Guillermo (prefiro entender mesmo como provocação) é valida no sentido de apontar que a arte de performance possui suas especificidades. Talvez uma delas seja a abertura à não-dissecação intelectual de todo e qualquer de seus componentes. Com isso, quero dizer que, por exemplo, há instantes de Passificadora que não são inteiramente inteligíveis, justificáveis. Ainda que possa parecer uma contradição, já que a performance é calcada na execução precisa de um roteiro (que, inclusive, é bastante transparente e acessível ao público através da própria ação), performá-la requer um exercício de permissividade às intervenções do acaso. Faço questão de não ensaiar demais, não tentar domesticar os materiais (filme plástico, lençol, caneta, tesoura) nem a presença do público, enfim, de deixar sempre entreaberta a porta para o desvio do roteiro, para o “erro”, o imprevisto. É uma tarefa dificílima, pois a tendência é desejar o máximo de domínio daquela estrutura, estabilizar-se – emocionalmente, inclusive. Você mesmo já me viu numa situação bastante delicada em uma apresentação na qual não conseguia encontrar a caneta e seguir o roteiro de ações pré-determinado.
[Leandro] Se me permite, gostaria de compartilhar com você como Passificadora me move. Ela me move. Ali, para mim, muitos sentidos estão em jogo, em especial aqueles que constroem referências de gênero e raça. Partindo do pressuposto de que essas referências estão em constante negociação no espaço social contemporâneo, Passificadora leva ao espaço do palco uma sequência de imagens e ações que me despertam para a opressão, o castigo, a transgressão e a coragem. A presença do corpo negro em cena, a eliminação coreográfica do pênis, as imagens construídas com o pano (apontadoras ora de significados de feminilidade, ora de masculinidade) e a plastificação da face são elementos cruciais para um entendimento da obra enquanto problematizadora das fronteiras dos gêneros, dos sentidos da opressão e também da própria arte.
[André] Sim, há muitas camadas de imagens que são referenciadas na performance; imagens que nos assaltam a todo momento por todos os lados, através de diversas mídias. Muitas dessas imagens remetem à opressão, que não necessariamente é localizada como sendo de origem externa. Penso que nós somos tão condicionad@s pela agressão de tais imagens, que chega um momento em que nós mesmos já damos conta sozinh@s, sem perceber, do serviço: o auto-boicote, a auto-degeneração e seus derivados. A inter-relação entre os elementos de racialização e restrição das possibilidades de expressão da dimensão erótica e da sexualidade acontece com mais frequência do que se imagina. Outro dia, por exemplo, minha mãe me contava que tinha recebido uma ligação de nossos parentes sergipanos. Faz muito tempo que não mantemos contato. Então, numa tentativa de me descrever a eles, ela lhes disse: “O André não é mais aquele garotinho… está um negão!” Cheguei a dizer à minha mãe que não era um “negão”, muito pelo contrário – sou magro, de estatura baixa para o padrão masculino brasileiro. Aquilo ficou em minha cabeça por algumas semanas. Alguns de nós, gays negros, lidamos com uma faceta um tanto diferenciada da homofobia, diretamente ligada à imagem fetichizada, exoticizada do homem negro: a figura do “negão”, que é grande e forte como um armário (no qual, inclusive, querem nos encerrar a todos), viril e selvagem, contemplado com um pau de proporções animalescas. Assim, a qualidade gay mancha, polui aquela imagem pretendida de macho – uma quase pré-condição da objetificada masculinidade negra – perante a família. Conforme a escritora Grada Kilomba coloca: “A construção do sujeito negro como ‘masculino’ é problemática porque torna invisíveis as experiências de negritude feminina e gay/queer. (p.56)”
[Leandro] Essa visão dialética / interseccional entre sexualidade e raça é, sem dúvida, de grande importância. Esses dois traços estão em fricção constante em Passificadora, assim como devem estar presentes dialeticamente também em suas performances fora do palco. A cena que você narra sobre sua mãe mostra isso. “Está um negão”, como você pontua, não só constroi sua imagem de negritude, como também diminui significações de qualquer masculinidade não-hegemônica. Sobre isso, voltando à Passificadora, acho pertinente ressaltar a relação que o trabalho mantém com a agência política. Lá no início, quando lhe perguntei sobre o caráter constativo e/ou performativo desse seu trabalho, você diz que percebe a obra como “uma proposta de fala que em si mesma se concretiza em ação”. Disse também que não lhe são alheias as diversas re-ações que os seus interlocutores (o público, você mesmo) apresentam (choro, cumplicidade, rejeição, estranhamento, encantamento, identificação e indiferença). Isso me faz pensar na impossibilidade da passividade de todo e qualquer discurso. Você em Passificadora, sua mãe ao telefone com seus familiares, nós dois nesse diálogo, as possíveis questões que esse diálogo suscite são produções discursivas que, como tais, não estão desarmadas. Se falar é fazer, sua performance desestabiliza, constrange, inibe e potencializa significados de subjetividade, tanto em você, quanto em nós, o público. Aqui, para fechar, proponho uma provocação quanto ao nome do trabalho. Muito ao contrário do que se pode pensar, essa passiva não foi pacificada. Ela, pelo seu corpo enquanto linguagem, age sobre si mesma e sobre todos nós. Passiva, Negão, Capada, Asfixiada, Belíssima, Diva e Monstro estão aí, aqui e lá tirando o nosso sossego.
BIBLIOGRAFIA
GÓMEZ-PEÑA, Guillermo. Ethno-techno: Writings on Performance, Activism and Pedagogy. New York: Routledge, 2005.
KILOMBA, Grada. Plantation Memories: Episodes of Everyday Racism. Münster: Unrast Verlag, 2010.
PINTO, Joana Plaza. “Conexões teóricas entre performatividade, corpo e identidades”. In: D.E.L.T.A.. 23:1. 2007.
André Bern é artista de dança e performance. Mestrando em Artes (UERJ), sua produção artística gira frequentemente em torno de questões identitárias e interdisciplinares, nas fronteiras entre gênero e raça, dança e artes visuais.
Leandro Cristóvão é professor da área de Letras. É mestre em Letras Neolatinas pela UFRJ e doutorando em Estudos da Linguagem pela PUC-Rio. Atualmente coordena o curso de especialização em Educação e Contemporaneidade do CEFET-RJ (Unidade Nova Friburgo), a partir do qual tem estabelecido conexões com artistas emergentes da cena carioca de dança contemporânea e performance.

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