[textos] Sotaqueando: Iara Cerqueira elabora relato crítico sobre trabalho de Janaína Lobo (PI)

[Janaína Lobo / fonte: nucleododirceu.com.br]

SOTAQUEANDO, por Iara Cerqueira

Cada criação artística nos faz revisitar um universo e um espaço no qual este se insere, e nesse caso se torna inevitável não pensarmos no lugar de onde veio Sotaque?, criado por Janaína Lobo, artista da dança e membro do Núcleo do Dirceu (PI). Sotaque? foi apresentado na Mostra Rumos Itaú Cultural Dança 2012-2014, durante o mês de junho deste ano, em São Paulo.

No trabalho, a artista utilizou as possibilidades organizativas de seu corpo como mulher, branca, residente do Piauí, classe média, bonita, para discorrer suas questões sobre “cidade”. Possibilidades. Uma cidade visivelmente des-localizada, que logo no início me provocou a seguinte pergunta: Como ainda estar no mundo? Mundo/cidade?

A pergunta parece ser detonadora de um mapeamento do corpo na cena: dos tijolos quebrados, do corpo deitado no chão; do corpo molhado e que, durante toda a apresentação, foi se tornando parte do cenário ali presente. Os desequilíbrios e os ruídos provocados pela artista pareciam localizar com insistência o “sotaque” que interligava os pontos da sua pesquisa naquele espaço-cidade-fria. O ruído ritmava com os movimentos, e a música – quando surgiu – parecia querer reforçar algum vínculo com esse ruído.

Aparentemente, a busca por respostas parece ocorrer durante todo o processo que compunha a cena; porém, em alguns momentos, percebe-se que já existiam respostas claras para perguntas sobre si mesma, e possíveis caminhos a seguir nesse trajeto-cidade. A tentativa de comunicar tais questionamentos pessoais provinha de impulsos físicos, concretos e subjetivos. Diante de minhas inferências, me deparei com o mundo da artista na cena: fragilidades, intimidades e escolhas. Os caminhos que estavam sendo tomados pareciam uma testagem de si mesma como intérprete de dança.

E a cidade, onde estava? Eu continuava procurando… Existiam sensações, como artista e espectadora. Uma sensação fria, seca, sem cor, sem cheiro; e a insistência na movimentação repetida parecia compor com a experiência da artista no lugar solitário e dividido entre estar ou não naquela cidade, que ela insistentemente nos apresentava.

A pesquisa seguia perguntando sobre a possibilidade de co-existir nesse ambiente – trabalho, questões sociais, dúvidas e resistência em relação ao outro, ou a dificuldade de estabelecer uma interlocução também consigo mesma. Percebo que o trajeto coreográfico da cena contribuiu para uma reflexão a respeito do meu próprio fazer criativo: como estabelecer um olhar mais apurado entre o que proponho e o que executo, os pontos de referência na criação do trabalho, o ambiente/lugar em que atuo e que discussões são propostas.

Curiosamente, a apresentação me fez pensar numa fala de Julia Kristeva: “Inquietante, o estrangeiro habita em nós mesmos. Somos nossos próprios estrangeiros, somos seres divididos [*]” Senti falta do risco que a cidade nos provoca, que é o de experimentar o outro, ou até a si mesmo, sotaqueando!

 

Iara Cerqueira é artista e performer. Mestre, bacharel e licenciada em Dança (UFBA), cursa doutorado em Comunicação e Semiótica na PUC/SP. Questões como sociedade, gênero, percepção e discurso são constantes em seus trabalhos. Mora em Salvador (BA).

 

[*] Referência:

KRISTEVA, Julia. Estrangeiros para nós mesmos. Trad. Maria Carlota Carvalho Gomes. Rio de Janeiro: Rocco, 1994 (p.190-191).

6 comentários sobre “[textos] Sotaqueando: Iara Cerqueira elabora relato crítico sobre trabalho de Janaína Lobo (PI)

  1. Olá Iara

    Interessante você abrir a discussão sobre o solo de Janaína, talvez o trabalho que mais inquietou na mostra Rumos Dança, no sentido de perceber a pergunta que o traz no título: Sotaque?
    Certamente o elemento mais potente é justamente o chão de gesso branco irregular barulhento silenciante. Saí de lá me questionando também, uma vez que morei lá em Teresina durante o Colaboratório 2010 e senti a cidade no meu corpo quando caminhava à esmo, cruzando com hortas, asfalto, urubus, passando por pontes, com o sol de rachar o quengo (isso, a cabeça).

    E de fato, a sensação de solidão era recorrente, e se apelamos para o discurso do processo, corremos o risco de não perceber o que se configurou como ação, como problematização da pergunta que faz: sotaque? E quando vc coloca no gerúndio, sotaqueando, de cara você colabora para tirar o silêncio que o trabalhou causou em lá esteve e com ele partilhou uma presentidade.

    Disso, o que sei é que Teresina é uma cidade que tem uma nordestinidade brasileira bem distinta das outras, mesmo com parecenças, mas não tantas quanto as outras, uma vez que é a única do Nordeste que não está no litoral e também a única planejada (confere?). O que isso pode nos dizer e desdizer?

    Joubert.

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    • Oi Joubert,

      Exatamente, comecei a pensar muito em relação ao solo apresentado e dessa motivação demandou minha escrita.
      Como vc pôde ver na apresentação e compartilhar, existia uma sensação de solidão recorrente e até a problematização da pergunta parece que continua no termo sotaqueando, que fiz questão de acentuar aqui. A idéia de escrever algo em relação a uma obra parece nos colocar também frente as nossas questões enquanto artista/intérprete/criador. Aqui, nessa reflexão tento criar pontes entre o espectador e obra apresentada.
      Acredito que como toda pesquisa em dança ele(a) se situa nesse lugar de processo e assim cabe dizer/fazer em diálogo com quem faz dança também!

      Iara.

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  2. Muito interessante seu olhar Iara Cerqueira, perceber esses ruídos da cidade do/no corpo. A partir disso, me sobreveio um questionamento: “Até que ponto os contatos mediados e imediatos da cidade e do corpo se interferem?
    Massificada e transformável a cidade/corpo vai delineando paisagens e sons que respondem aos estímulos nômades ecoados pelos espaços.

    Mabel.

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    • Oi querida, como eu disse corpo/ambiente co-existem, em consonância com outros ruídos que venham acontecer e consequentemente se transformar em corpo/informação/ambiente. Muito bacana sua reflexão, continue visitando nosso espaço, tem textos e muito mais, aproveite e indique aos colegas. Esses comentários estão me estimulando a escrever, obrigada!

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