[textos] eixo do fora#4: “Flores de papel, corpo que se dobra”, por Dally Schwarz

FLORES DE PAPEL, CORPO QUE SE DOBRA [*], por Dally Schwarz

A enfeitar aleias

(Roberto Corrêa dos Santos [**])

mulher dobra-se sobre si com a doente beleza de um balé feito da aérea

graça da histeria

segundo a frase inscrita no pedestal em que pousa petrificada por esplêndido

instante de gozo e dor.

 

Conheci a artista plástica mineira Camila Lacerda em Tocantins, participando do festival de performance do SESC, intitulado Convergências. Lembro que Camila estava no mesmo avião que eu, e foi a primeira artista que conversou comigo. Também me lembro do seu caderno de flores que, antes mesmo de propor o escambo, já estava paquerando. O caderno foi feito pela artista, com um tecido lindo. As flores em Tocantins eram muito coloridas, fazendo contraste com o verde forte, o céu azul celeste e o amarelo dos girassóis inventados lá.

Os girassóis foram plantados na cidade, mas não são de lá. Estávamos caminhando pelos arredores do SESC quando conversávamos sobre nossas casas. As de Camila eram de pedra portuguesa, e quando acumuladas criavam uma instalação linda. Eu, como gosto pouco de falar, contava para Camila de um lugar incrível no Rio de Janeiro onde eu queria fazer um evento de performance: o Hotel da Loucura. Contava para ela sobre os saraus que o Coletivo Norte Comum vinha organizando e como o espaço era incrível e fascinante. E foi mais ou menos aí que Camila, com seu jeitinho miudinho mineiro, me contou sobre uma experiência que tivera uma vez internada.

Escambe-se!

Camila Lacerda levou para o Convergências 2013 um trabalho que se chamava Escambe-se. Uma performance em que a artista coloca à troca objetos pessoais com uma escala de valores afetivos. Lembro que para trocar o caderno, que era muito importante, eu a ofereci uma carta que meu pai tinha escrito para mim. Lembro-me que essa carta veio no contexto de uma separação esse ano. Um relacionamento de cinco anos. Era uma carta muito bonita, achei que valia como algo que realmente tinha muito valor para mim. O trabalho de Camila me trazia um pouco desse sentimento íntimo e de uma troca muito afetiva. Até porque as trocas são feitas através dos diálogos, de uma história. Lembro que ela até ficou muito comovida quando leu a carta e me perguntou muitas vezes se eu queria trocar. Trocamos. (Voltei para a palestra, que acontecia ao mesmo tempo que a performance) Quando me sentei na cadeira do auditório, abri o caderno para escrever para um amigo, também mineiro, e achei a carta dentro do caderno. Levei um susto, pensei que era uma coisa do destino, que ela tinha se esquecido. Hesitei. Desci para entregá-la. Quando eu cheguei lá, ela falou: “Você descobriu! Não posso aceitar, mas fica com o caderno”.

Escambe-se!

A história de Santa Maria, eu me recordo bem. Ela me contou que uma das coisas mais fortes para ela era que lá não podia criar, não podia desenhar, pois lápis são perigosos nas mãos de pessoas internadas. Tudo é arma contra si mesmo, contra o outro. Então, ela me falou das flores de papel. Eram como origamis. Cheias de dobras. E o corpo ia dobrando e fazendo muitas flores. A cada dia mais flores. Enchendo-se de flores, flores de papel. O corpo, em dobras de papel, o corpo-dobras.

Outro dia, era domingo, eu acordei na casa de um amigo, mineiro, o mesmo para quem eu estava escrevendo quando descobri a carta, e vi o e-mail de Camila: “Lembra da performance com flores de papel higiênico que disse a você que eu iria fazer?”. Na sequência, vinha o link (para o vídeo que vocês podem conferir no final desta postagem) e um texto:

Em 2008, Camila Lacerda é internada no hospital psiquiátrico Santa Maria, em Belo Horizonte. Durante 28 dias de internação, a artista não obtinha muitos recursos para produzir sua arte. A alternativa que Camila encontrou foi a de utilizar materiais de sua rotina no hospital para realizar seus trabalhos e, um deles, foi o papel higiênico. Camila Lacerda fez flores do papel higiênico do seu quarto, as coloria com os sucos que bebia e as entregava para os demais pacientes do hospital. “Flores Para Santa Maria” é uma ressignificação desse período conturbado de sua vida. Para isso, a artista escolheu a Praça da Liberdade como cenário para a sua performance. Ano: 2013.”

 

Dally Schwarz é formada em Estudos de Mídia na UFF. Mestranda em Linguagens Visuais na Escola de Belas Artes da UFRJ, interessa-se pelas imagens do corpo, pela performance e questões feministas e de gênero nas artes. Dança e se pendura para entender melhor seu corpo e os corpos.

 

[*] Este texto integra a série eixo do fora, desenvolvida por Dally para ctrl+alt+dança.

[**] SANTOS, Roberto Corrêa dos. Clínica e Artista I: face ao reto o lobo. Rio de Janeiro: Circuito, 2011.

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