[textos] eixo do fora#7: “Retalhos de Aço: trans-forma-ação”, por Dally Schwarz

RETALHOS DE AÇO: TRANS-FORMA-AÇÃO [*], por Dally Schwarz

Como os artistas criam roteiros, programas, sistemas para realizar suas performances? De que formas diagramas e mapas podem ser chaves para entendermos a criação de um trabalho? Esse texto da nossa série está interessado em pensar “formas de” que criamos para organizar os trabalhos que não têm “uma forma” de serem feitos.

Nota-se: trans-formas de fazer, pensando em eco com a pesquisadora Eleonora Fabião.

Pensar como se constrói esse corpo em performance, lidando com improviso, acaso, e com a urgência das invenções de como fazer. Pois o fazer, colocar todo o corpo na massa, ou acionar toda a massa do corpo, é trabalhoso, arriscado, vulnerável, suscetível e variável.

Nota-se: corpos são vias e meios, falando em eco com a pesquisadora Eleonora Fabião.

Conversando com a artista visual Violeta Pavão, a respeito de sua investigação acerca do ferro no trabalho Retalhos de Aço, encontramos uma trans-forma de fazer com a presença de um mapa de palavras. Esse mapa foi criado durante o processo de investigação e construção do trabalho da artista. Como será que essas palavras sobrevivem agora no trabalho? Como se relaciona esse corpo, depois de tantas trans-forma-ações, com esse desenho de letrinhas?

Nota-se: proponho que os leitores leiam o texto da pesquisadora Eleonora Fabião em que fala sobre P como em Performance, P como em Programa.

Então, convido Violeta Pavão a olhar de novo para essa colcha de retalhos que construiu, e falar um pouco do seu trabalho a partir dessas palavras, numa tentativa de nos fazer pensar sobre a relação entre a performance e as trans-forma-ações.

espaço_ “Caminhem e escolham um espaço para vocês interferirem” Eu já tinha ouvido falar do Cais do Valongo, mas nunca tinha ido lá. Fui lá, achei um espaço estranho, aquele jardim fake. É um espaço de reivindicação do movimento negro, um espaço de memória_ e de luta. Esse espaço me remeteu ao som das correntes arrastando naquele local, o som das correntes dos escravos que vinham trazidos no navio negreiro. Pensei nas camadas de concreto que estão sendo colocadas em cima dessa história. A maneira como está acontecendo, essa revitalização. De alguma forma esse espaço me afeta, mesmo não sendo uma mulher negra. Eu não estou ali representando, eu estou ali vomitando os atravessamentos das camadas deste espaço.

gesto_ o trajeto que tracei do Jardim Suspenso do Valongo ao Cais do Valongo tinha como ideia-guia a produção sonora. Som pelo atrito do ferro das anilhas com o concreto, das correntes de aço entre si, das anilhas com as correntes, grades, fios e com os variados objetos encontrados pelo caminho. Assim os gestos foram sendo construídos, em função de uma ativação do espaço pelo som. As anilhas móveis, presas por correntes de elásticos, ocupavam o espaço extra corpóreo. Funcionavam como detectoras das camadas geológicas abaixo do concreto fresco, dos diferentes discursos abafados por uma única história, das possibilidades de vibração do espaço sufocadas pela estética museológica.

afeto_    Quando eu levei os ferros para o Atelier de Performance, eu pedi para as pessoas colocarem ele no meu corpo (até então só havia experimentado-os nas minhas pernas), percebi como a temperatura do ferro me interessa, faz parte da minha memória sensorial de Visconde de Mauá, das águas frias, especificamente de uma cachoeira perto de casa. Os vinte quilos de ferro e aço, amarrados ao corpo, também me trouxeram/trazem uma intensa sensação de leveza, ao mesmo tempo que pedaços do corpo permaneçam muito rígidos. Este corpo em fragmentos é a tal colcha de retalhos, os retalhos de aço.

orgânico e mecânico  _ o corpo da metrópole não suporta mais dualismos, o orgânico se dilui na metrópole, o mecânico se entranha no orgânico e, assim, coabitam o mesmo espaço, por diferentes vibrAções corpóreas; os enxertos orgânicos e inorgânicos invadem os corpos comunicacionais. O meu corpo é uma máquina de engrenagens de pele e aço e ferro e pedra e água e sangue e borracha e elementos/excrementos que mastigo e cuspo.

objeto_ me interessa a forma dos objetos que tornam o outro objeto informe –   o objeto corpo agrega o objeto anilha  – que soma o objeto elástico ao corpo que já se tornou outro objetotempoespacializado.

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símbolos_ como são construídas as cartografias urbanas, quais agenciamentos são travados, de que maneira as subjetividades são construídas? Como sobrevivem as construções simbólicas dentro das cidades, como compomos este cenário e como ele nos compõe? É relevante para o trabalho nas cidades e, obviamente, porque atento minha energia a isto, pensar nas construções simbólicas que chegam a nós e de que maneira aderimos aos símbolos pré-definidos e de que maneira não aderir, desconstruindo-os. Para falar de símbolo, é necessário também pensar no que Milton Santos trabalha como fixos_ e fluxos. Fixos são econômicos, sociais, culturais, religiosos, e os fluxos, os modos de circulação, distribuição, consumo, cuja definição é cada vez mais do domínio político. Justamente este fluxo_ que cabe discutir, pensar, colocar em tensão nos jogos citadinos.

 

 

Violeta Pavão, artista visual nascida em Visconde de Mauá (MG), vive no Rio de Janeiro há quatro anos, participa dos projetos Zonas de Contato (coordenado por Denise Espirito Santo (UERJ)) e Atelier de Performance (coordenado por Eloisa Brantes (UERJ)) e também integra o Teatro de Operações (UNIRIO).

Dally Schwarz é formada em Estudos de Mídia na UFF. Mestranda em Linguagens Visuais na Escola de Belas Artes da UFRJ, interessa-se pelas imagens do corpo, pela performance e questões feministas e de gênero nas artes. Dança e se pendura para entender melhor seu corpo e os corpos.

[*] Este texto integra a série eixo do fora, desenvolvida por Dally para ctrl+alt+dança.

 

 

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