[textos] “Deu a louca no coreógrafo”: André Bern entrevista Adriana Pavlova sobre matéria publicada 12 anos atrás

“No último Natal, em visita à casa de minha mãe, encontrei uns recortes antigos de jornal – dentre eles, um caderno RioShow (jornal O Globo) de novembro de 2002, que apresentava uma matéria de capa assinada pela Adriana Pavlova”. A matéria intitulava-se “Deu a louca no coreógrafo” (ver acima) e tratava do então Panorama RioArte de Dança, atual Festival Panorama, conforme explica André Bern (editor de ctrl+alt+dança).

O saudosismo inicial (“o recorte estava guardado entre materiais de minha graduação em Dança na UFRJ”) deu lugar à curiosidade, a uma vontade de contactar a jornalista para uma entrevista sobre suas percepções 12 anos depois da publicação. Abaixo, vocês podem conferir a troca de e-mails entre André e Adriana, que compõe esta postagem:

 

André Bern: Que acontecimentos, pela sua perspectiva, mais marcaram a dança carioca desde a elaboração da matéria (em novembro de 2002) até hoje?

Adriana Pavlova: Antes de tudo, é importante que eu conte aqui a minha trajetória como jornalista de dança, que neste período, de 2002 até 2014, teve muitas transformações. De 1995 a 2005, escrevi sobre dança no jornal O Globo, como repórter do Segundo Caderno, cobrindo os eventos e todo o cenário da área no Rio e no país. Naqueles dez anos, escrevi dois livros (perfil da introdutora do balé clássico no país, a russa Maria Olenewa, e o livro de uma década do Festival Panorama), além de ter sido bolsista do então RioArte, com um projeto de pesquisa sobre a dança carioca dos anos 1990, e feito um intercâmbio na França, para conhecer os centros coreográficos nacionais. Em 2005, por razões pessoais, fui morar em São Paulo, onde, de 2007 a 2010, escrevi sobre dança no jornal Folha de S. Paulo. Depois, de 2010 a 2012, tive outras experiências profissionais, numa agência de marketing e à frente da comunicação dos museus da Língua Portuguesa e Futebol. De volta ao Rio, em 2013, também voltei a escrever no Globo, a partir de então como crítica de dança, dividindo o espaço com Silvia Soter. Desde o início do ano também, faço parte da primeira turma do novo mestrado da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o Artes da Cena, com um projeto sobre a companhia da Lia Rodrigues na favela da Maré. Portanto, nos 12 anos que se seguiram após aquela reportagem de 2002 minha relação com a dança carioca teve diferentes intensidades, devido à relativa distância durante oito anos. Desde o ano passado, tenho tentado assistir a tudo que acontece de dança na cidade, procurando me atualizar e, sobretudo, conhecer melhor os jovens coreógrafos e as jovens companhias em ascensão. De uma forma geral, acho que as companhias que já existiam em 2002 passaram por uma fase de amadurecimento em suas linguagens e hoje há trabalhos muito interessantes em curso. Outro ponto que me chama muito a atenção é o grande interesse pelo aprofundamento teórico de quem está ligado à dança, com muitos artistas realmente buscando mais informações e estudando, principalmente entre os mais jovens. Os eventos teóricos, mesas, discussões e publicações deram um grande salto e isso é maravilhoso. Por outro lado, sinto que em 2002, havia mais verbas para os grupos, mais chances e canais financeiros, além de mais palcos para as apresentações.

 

AB: Na matéria, referindo-se a apresentações do Festival Panorama daquele ano, você dizia que “os bailarinos não estão nem aí para moralismos e tiram as roupas sem pudor”. O que a nudez em dança ainda tem a problematizar, a propor em 2014?

AP: Olhando criticamente 12 anos depois, acho a afirmação muito vazia. Não lembro exatamente em quais espetáculos havia nudez, mas, de qualquer forma, tirar ou não tirar a roupa não é apenas uma questão moral. Pode ser poética, política… Acredito que a nudez tem que estar dentro do contexto do espetáculo, deve ser usada ou não de acordo com a proposta do coreógrafo. No último espetáculo da Lia Rodrigues Companhia de Danças, Pindorama, os bailarinos ficam nus todo o tempo. Ali a nudez sublinha as questões da obra, que trata, em linhas gerais, da dureza de ser humano. É o homem-bicho, que não precisa de nenhum figurino.

AB: Maria Alice Poppe, Marcela Levi e Gustavo Ciríaco (em 2002, ainda integrante da dupla Ikswalsinats, com Frederico Paredes) são nomes que desenvolveram uma trajetória visivelmente apoiada pelo Festival, que mostrou trabalhos seus com frequência nas edições posteriores. Como você analisa o impacto da curadoria de trabalhos cariocas realizada pelo Festival ao longo dos anos? Que danças contemporâneas têm cabido (ou não) nos programas de cada uma de suas edições? 

AP: Fiquei distante do Panorama durante muitos anos, por isso não consigo ser muito precisa nesta questão. Na sua primeira década, o Panorama cresceu junto com a dança contemporânea carioca, sendo seu principal palco. Pelo que vi no ano passado, a dança do Rio continua tendo um espaço, com criadores como Denise Stutz e Gustavo Ciríaco tendo oportunidade de fazer ali estreias mundiais de trabalhos seus. Mas não consigo saber se há uma reserva de mercado para cariocas nos últimos anos dentro do Panorama, muito embora tenha a sensação de que sempre há lugar para trabalhos interessantes e consistentes.

 

AB: Que jovens coreógraf@s, intérpretes-criador@s, performers e iniciativas cariocas em dança chamam sua atenção hoje?

AP: Estou num momento de reencontro com a dança carioca, tentando conhecer todas as vertentes do que está sendo feito por aqui. Infelizmente, não há tantos palcos para acompanhar tudo tão de perto. Com a ajuda do Espaço Sesc, onde realmente há uma programação efetiva de dança, consegui ver os trabalhos de nomes como Márcio Cunha e Felipe Ribeiro, por exemplo.

AB: Numa tentativa de descortinar aspectos da dança contemporânea ao grande público, você listava na matéria de 2002 características “em alta” e “em baixa” nos trabalhos do Festival. De acordo com o infográfico (ver acima), cabelos curtos, interação com o público, palco nu e work-in-progress estavam em alta, enquanto música clássica, fragmentos de textos literários, luz colorida e sofrimento estavam em baixa. Que informações seriam fundamentais num infográfico que pretendesse se debruçar sobre a dança contemporânea em 2014?

AP: É curioso olhar esse tipo de generalização 12 anos depois. Hoje, não me sinto nem um pouco à vontade para fazer algo semelhante em relação à dança atual. Há, claro, tendências, mas não dá para generalizar.

 

 

André Bern é artista-pesquisador e blogueiro cultural. Bacharel em Dança (UFRJ) e mestre em Artes (UERJ), atua relacionando campos artísticos e produzindo trabalhos que transitam entre dança contemporânea e performance, videoarte e programação visual.

 

 

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