[textos] “Por uma nova escrita”: Raíssa Ralola endereça carta a Maria Alice Poppe e Tato Taborda

[Maria Alice Poppe e Tato Taborda em Terra Incognita / foto: Renato Mangolin]

Juiz de Fora, março de 2014 //// Carta a Mª Alice Poppe e Tato Taborda

Pensei que o trabalho de vocês poderia ser meu primeiro passo na nova série de escritos críticos aos quais, daqui em diante, darei vida. Parecia haver coincidências particulares entre Terra Incognita e o modo como desejava compor, já que estimava uma nova escrita, decerto à mão. E logo descobri que seria a nanquim.

Já há algum tempo desejava buscar um modo de escrita não tão provisório como o texto na tela do computador, pois sempre que iniciava uma escrita sobre um trabalho de arte – sendo este de minha própria autoria, ou da autoria de outrem – realizava durante longo tempo, infinitas edições. Insatisfeita com essa mecânica específica de escrita, composta por uma infinidade de ensaios, acabei por me decidir pelo formato carta à mão e à tinta china (modo como também é chamado o nanquim). Isso, a fim de trazer logo ao papel as impressões mais básicas, e talvez não tão rebuscadas, que uma ação artística pudera, porventura, me causar.

Terra Incognita pareceu-me, então, de extrema pertinência como nº1 desta experiência, já que há um fio que desenha e redesenha o espaço durante longo tempo do trabalho. Também o convite do espetáculo, possivelmente trabalhado a nanquim (ou uma imitação virtual do nanquim), inspirava minimamente possibilidades de escrituração. Mil fios corriam pela cartografia do papel, assim como mil fios correram pelo ser-corpo-Alice e criaram escritas, poesias, dobras momentâneas. Corpo orgânico! Assim o denominaria, e se me questionassem: que tipo de uso você deseja fazer desta palavra? Que quer dizer com “organicidade”? Diria eu: quero dizer das coisas nuas, das coisas “como são”, lidas e vividas pelo coração e pela pele. Pela retina e pelo duodeno. Pela fortaleza das unhas e pela possibilidade de estar nua ao desprender os cabelos.

Poesia. Poiesis. Poetry. Em busca de movimento e de som, de oposições e de polaridade: presente, passado e futuro. O passado insere-se como construção de um repertório que, ali, na presença do presente, materializa-se. E o futuro vem como inevitável estado de espírito, que vive pelo novo, sem que o velho precise ser, ao todo, posto fora. Terra Incognita visita Roma, visita uma língua do passado que teve fôlego para gerar novas outras. Visita tanto a origem, quanto o originado, pois há tempo no agora! Na ágora, na polis, no théatron, Terra Incognita também visita Grécia; lá, busca referências que se desdobram.

Articulando-se uma mulher se move. Talvez esteja imersa dentro de mim mesma, talvez seja fruto “imaginatório” de um outro homem, que manipula um violão, estranhamente, com um arco de violino. Talvez ela esteja realmente viva e realmente nua (ainda que traje vestimenta), buscando percorrer territórios não mapeados. O mapa se refaz! Quer dizer que não há território fixo? Que os territórios são sempre móveis e que a idéia de não movimento é uma ilusão? Quem dera fosse o não mapeado em nós tão ávido aos interesses como o já conhecido e fixado. O já sabido, que tanto interessa!

Dois compositores, um esconderijo, um encontro. Uma mulher de Modigliani? Um homem de cordas? O sensual, o organizado, o orgânico, o esplendoroso, a beleza. Tudo isso sai de dentro e de fora. Tudo isso cria ritmo, faz referência e referenda um tal fluxo de vida e uma tal “invisibilidade matérica” do pensar.

 

 

Raíssa Ralola é artista do corpo e crítica. Pós-graduada em Teatro e Dança na Educação, e em Metodologia Angel Vianna (FAV). É mestre em Artes (UERJ) e coordenadora assistente da Pós-Graduação em Conscientização do Movimento e Jogos Corporais na FAV. Divide moradia entre Juiz de Fora (MG) e Rio de Janeiro (RJ).

 

 

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