[textos] eixo do fora#8: “Como fazer uma bolsa de palha?”, por Dally Schwarz

COMO FAZER UMA BOLSA DE PALHA? – TÉCNICAS EM QUE O CORPO CABE OU QUE CABEM AO CORPO [*], por Dally Schwarz

 

Existem técnicas para fazer trançados em diversas culturas. Os trançados fazem também desenhos, tramas. A etnia indígena do Amapá Wajãpi possui grafismos conhecidos como Kusiwa. Esses grafismos, que nos remetem à cosmogonia dessa etnia, podem ter como suporte o corpo, cestarias, a tecelagem, cuias, bordunas e objetos de madeira. Fala não só sobre a arte de uma cultura, dos grafismos, mas também sobre uma linguagem, uma maneira específica de compreender, perceber e interagir com o universo.

Da mesma forma, a artista visual Luisa Vidal cria suas bolsas de palha. Colocando os fios de nylon de plástico presos às pernas, na medida entre a bacia e os pés, Luisa usa o corpo como um tear manual, e põe as mãos para trançar a fim de descobrir uma forma de fazer. Sem muita filiação e tradição, em comparação aos seus parentes indígenas e uma das suas referências instigadoras para fazer o trabalho, busca na história da arte e da técnica essa gênese. Cria algo que ela mesma diz: “não é uma bolsa, pois não se parece com uma bolsa. Não é uma bolsa, pois não poderia ser usada como uma bolsa”. Mas ela chama de bolsa de palha. E não é de palha, mas podemos chamar de bolsa de palha.

É curioso como a bolsa veste o corpo. Mãos e pernas agem, fazendo uma cama de gato gigantesca para que caiba ao corpo o ofício de fazer. Isso nos interessa. Quais as técnicas em que o corpo cabe? Acredito que, na contemporaneidade, o corpo está cabendo em qualquer lugar, muitas vezes perdendo suas dimensões corpóreas, esvaziadas, para virar uma imagem do corpo. Mas o que cabe ao corpo é encontrar suas dimensões palpáveis, mensuráveis, materiais para caber, não caber, transbordar, sobrar, faltar e, assim, não se esvair. E é dessa forma que acho interessante demais o trabalho de Luisa Vidal das bolsas de palha. A instigação da artista em medir seu próprio tamanho para chegar a um objeto (ou seria não objeto?) de arte é muito interessante enquanto pesquisa. Pois isso é uma linguagem sendo construída: com as mãos, com a aproximação do material, com a vontade de conhecer, criar e fazer de forma integral, e não segmentada, em que o corpo fica com cada parte jogada num canto e tudo vira projeto, conceitos esvaziados, etéreos e mentais.

Nesse sentido também, a arte indígena do Amapá dos Wajãpi contribui para nosso pensamento sobre arte, corpo, e nos faz perguntar novamente: como fazer? A técnica já foi posta em cheque há alguns bons 40 anos, pelo menos na arte ocidental; mas quando repensamos o sentido da técnica através de outras referências, abrimos mais nossa cabeça, rachando mesmo – e podemos abrir caminhos, como podemos ver no trabalho de Luisa.

A exemplo de trançados, podemos pensar na cestaria que engloba os gêneros cruzado, encanado, enrolado e torcido, conforme a maneira de dispor as fibras; e o tipo espiral, com ou sem armação de sustentação. Dessa forma, a bolsa de palha – aquela que Luisa veste para depois não colocar nada dentro, nem usar como uma bolsa – carrega o gesto do corpo. Cabe a esse colocar no corpo. Pois nada melhor que saber nossa medida para conhecer o corpo. O corpo que somos, e que conhecemos.

Os gestos do corpo dão forma à bolsa de palha. Luisa disse que via a bolsa como uma boneca. Achei engraçada essa palavra, pois a boneca no trabalho do design é um protótipo, e para muitas culturas indigenas é uma peça mágica, usada em ritos de passagens pelas meninas e mulheres.

Com curiosidade de saber mais sobre os Wajãpi, eis um pequeno livro produzido em parceria com pesquisadores índios e não-índios sobre a imagem a partir da perspectiva Wajãpi:

http://www.apina.org.br/documentos/Ia-Para_nos_nao_existe_so_imagem.pdf

 

“Para nós não existe imagem, é diferente do pensamento dos não-

índios. Pelo nosso conhecimento, existem vários assuntos sobre

imagem. Não é somente foto, tem também princípio vital i’ã,

esse espírito que vai para o céu, tem a sombra sem vida,

a substância e tem ipirerã, um tipo de roupa.

Tudo isso é o nosso conhecimento sobre imagem.”

Sabedoria Wajãpi

 

 

[As imagens que aparecem aqui são do ritual Defesa de Mestrado, de Luisa Vidal, no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da EBA-UFRJ, que aconteceu no Hotel da Loucura, no Hospital Psiquiátrico Nise da Silveira, no dia 30 de maio de 2013.]

 

 

Dally Schwarz é formada em Estudos de Mídia na UFF. Mestranda em Linguagens Visuais na Escola de Belas Artes da UFRJ, interessa-se pelas imagens do corpo, pela performance e questões feministas e de gênero nas artes. Dança e se pendura para entender melhor seu corpo e os corpos.

[*] Este texto integra a série eixo do fora, desenvolvida por Dally para ctrl+alt+dança.

 

 

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