[textos] Por uma nova escrita #2: carta a Jan Macedo e Simony Abrão, por Raíssa Ralola

[Jan Macedo e Simony Abrão em Entre Corpos e Cômodos / foto: Eduardo Almeida]

Juiz de Fora, abril de 2014 //// Carta a Jan Macedo e Simony Abrão

Bom, vocês pediram que escrevêssemos e aqui estou para fazê-lo. Confesso que pensei nesta proposta: pedir ao público que escrevesse sobre o trabalho. Um tanto estranha. Mas que importa? Parece-me original.

De fato, fui até o teatro para escrever. Quero dizer: ver para escriturar, observar para tecer… e não é que, para minha surpresa, o espetáculo também era tecido por rendas, transparências, por algumas diferentes mãos!

Dali saí e fui conduzida em direção ao mar, sem que muito desse-me conta. Passei pela areia da praia até a casa e não me importou o peso das sacolas, pois um estado de leveza me povoava. Dei importância à sensação nos pés: a areia úmida e fria, macia e tenra. Logo que cheguei, preparei-me para dormir. Era ainda cedo, mas um estado de espírito terno pedia contato com os sonhos do mundo astral.

Tendo ido ver para escrever, ponho agora minhas impressões mais íntimas na cena da folha. Essas coisas de escrever a mão têm trazido um ritmo tão novo. Novamente novo, pois que quase sempre assim o fiz. Quase sempre escrevi a mão, mas desde que iniciei a “escrita digitação”, aos poucos abandonei a “escrita a mão”. Talvez escrever a mão seja poder dizer de forma, de formatos. O desenho gráfico da letra, as escolhas pessoais mais ou menos rebuscadas que ali se inserem.

Vocês muito disseram sobre formas. Disseram sobre a ação de tecer rendas, sobre opacidade e translucidez. Disseram dos homens e das mulheres, da maternidade e dos bebês. Disseram mais uma vez sobre formatos, recortes; sobre efeitos óticos, lentes e modos de ver. Para além dos modos de ver, o que ver, como ver. Disseram sobre sorrisos, palavras e repetições.

Dali saindo para empreender minha caminhada solitária, ainda povoada pelo trabalho estive pensando sobre o estar nu em cena. Sobre o despir-se para si mesmo e para outrem. Sobre o despir-se para o público. Pensei se não estivera você, Jan, um tanto mais nu quando dirigia palavras para a plateia ao término do espetáculo; quando tecia agradecimentos e solicitava que escrevêssemos sobre seu trabalho.

Lembrei-me de algumas vezes em que me senti nua sem tirar peças de roupa. E, é claro, pensei em Maria Alice Poppe, que me trouxe rapidamente a sensação de nudez quando desprendeu os cabelos em Terra Incognita, ainda que seu corpo estivesse todo encoberto.

Neste dia, refleti sobre a nudez como um ato inaugural, algo que instaura originalidade em si. E o mesmo não me pareceu relacionado de modo exclusivo às vestimentas ou à ausência delas. Fiquei pensando se você mais nu estaria se usasse uma roupa íntima, composta, por exemplo, de cueca e meias.

Refleti sobre o nu…

O nu me parece ter sempre algo de “(des)cabido” e talvez por isso se conecte com a originalidade aqui em minha memória. O nu tem sempre uma entrega extra de si mesmo. Talvez por isso o realizemos com maior frequência na intimidade.

E é este ato extra de intimidade, de entrega de si que, quando convidado à cena, parece inaugurar um tal status de originalidade. E quero dizer que o seu pedido íntimo ao público, para que escrevêssemos, este sim pôs em foco tal estado.

Falando de estados: nada (ou tudo) que eu possa pensar sobre características formais, conceituais ou escolhas estéticas do trabalho poderia suprimir o estado de caminhada posterior a este. Leve, presente, tenro, espacial. Por ele escrevo agora.

 

 

Raíssa Ralola é artista do corpo e crítica. Pós-graduada em Teatro e Dança na Educação, e em Metodologia Angel Vianna (FAV). É mestre em Artes (UERJ) e coordenadora assistente da Pós-Graduação em Conscientização do Movimento e Jogos Corporais na FAV. Divide moradia entre Juiz de Fora (MG) e Rio de Janeiro (RJ).

 

 

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