[textos] Por uma nova escrita #3: carta a Denise Stutz, por Raíssa Ralola

[Denise Stutz em Finita/ foto: Antonio Flor]

 

Juiz de Fora, maio de 2014 //// Carta a Denise Stutz

 

Querida Denise,

Não nos conhecemos mas, igualmente a você, sou uma artista mineira. E sabe que isto foi a primeira coisa à qual me atentei em Finita: o seu eu-mineira? O seu jeito de falar, de se mover, de olhar e caminhar em cena me lembraram de Minas e, então, já me senti em casa.

Você colocou uma música, contou uma história, fez gestos, moveu-se; mas era seu olhar que parecia costurar toda a trama do trabalho. Toda vez que eu podia ver seus olhos, brilhantes, abertos e observadores, era sugada para a cena do espetáculo, tomando e tornando-me um pouco dela, como você parecia propor.

Sabe que me senti um pouco criança durante a performance? E, curiosamente, sinto-me infante agora que escrevo a você. Bom, ao menos assim posso ser “simples”, como você foi. Simples, apenas simples.

Você falou de uma loja de discos, colocou uma mesma música algumas vezes, sentou-se numa cadeira. Houve um momento em que você nos observou. A luz do palco findou-se e a plateia se acendeu. Você estava lá, em cena, observando-nos e dizendo que nos botava na cena. Nessa hora eu quis sorrir, fazer careta, me comunicar com você, pois tinha certeza: você me via.

Por último, virou-se de costas e dançou, sempre de costas. Seu olhar não mirou mais o nosso olhar e neste momento eu soube que finito era o espetáculo, pois finito foi seu olhar.

Tive clareza de que foram seus olhos, mais que todo o resto, que de fato habitaram a cena durante grande parte do trabalho. Seus olhos “claros”, brilhantes e grandes, revelavam algo mais. E é isto que baila em Finita. Este algo mais, oculto e quase misterioso. Lembrei-me de A Janela da Alma, filme de João Jardim, e de Clarice Lispector.

Alguém me disse que você devia ter cuidado, pois algo parecia assemelhar-se muito a 3 Solos em 1 Tempo, e você poderia cair em uma fórmula (como na matemática ou química, um modo específico e sempre mesmo de fazer). Como não o vi, não sei! Mas pensando aqui, com meu infante espírito que reverbera, se são seus olhos que revelam dança e aos olhos, penso, não há como coreografar. Não deve haver fórmula, nem risco de lápis que lhe possa tomar.

 

 

Raíssa Ralola é artista do corpo e crítica. Pós-graduada em Teatro e Dança na Educação, e em Metodologia Angel Vianna (FAV). É mestre em Artes (UERJ) e coordenadora assistente da Pós-Graduação em Conscientização do Movimento e Jogos Corporais na FAV. Divide moradia entre Juiz de Fora (MG) e Rio de Janeiro (RJ).

 

 

 

2 comentários sobre “[textos] Por uma nova escrita #3: carta a Denise Stutz, por Raíssa Ralola

    • Ola, seu comentário é bem vindo, e faz repensar sobre o foco e o cunho desta série de escritos que estou iniciando.De fato tenho buscado uma nova escrita, embalada pelos trabalhos de modo mais maleável e pessoal. Não estou convencida de que não se trate de um texto crítico… Talvez seja um texto crítico e etc, ou texto artístico e etc, para usar a denominação criada por Ricardo Basbaum quando menciona uma “nova categoria” de artistas: os artistas e etc. Vale ressaltar que aqui escrevo, por habitar a mesma.
      Deixo o link para acessar o texto de Basbaum aqui: http://www.e-flux.com/projects/next_doc/index.html

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