[textos] eixo do fora#9: “Linhas/rotas/trajetórias”, por Dally Schwarz

LINHAS/ROTAS/TRAJETÓRIAS [*], por Dally Schwarz

 

Em clima das comemorações de 450 anos da cidade do Rio de Janeiro, o olhar periférico de Renata Sampaio nos convida a percorrer a cidade de forma alter-nativa. Em uma escrita cartográfica, a educadora, artista e performer nascida no bairro de Realengo desenvolve uma trajetória e um pequeno vocabulário que nos ajuda a ver relações mais tensas, através de uma linha que se emaranha e vai criando uma espécie de casulo no corpo.

Se seu trabalho nos remete de cara à artista mineira Lygia Clark, com sua Baba Antropofágica, é de grande importância que a gente produza novas associações para ampliar os repertórios. Por isso, me lembrei da artista visual, pesquisadora e educadora paulistana Rosana Paulino, que expôs recentemente no Rio de Janeiro, no Instituto dos Pretos Novos; mais especificamente, da sua série de desenhos e esculturas Proteção Extrema Contra a Dor e o Sofrimento, em que vemos uma mulher negra envolvida por linhas e fios que são parte do seu próprio corpo.

[Proteção Extrema Contra a Dor e o Sofrimento 2, de Rosana Paulino / fonte: rosanapaulino.com.br]

Rosana nos fala um pouco sobre essas linhas em sua série:

A ideia do desenho vem de longe. Já trabalho com esta questão do isolamento há algum tempo. O nome da obra é Proteção Extrema Contra a Dor e o Sofrimento, mas que proteção é esta? Na verdade é uma falsa proteção, mais um congelar-se que proteger-se. Penso nas pessoas que se isolam tentando se livrar das frustrações da vida e se tornam quase como crisálidas que nunca irão desabrochar… Murcham ao invés de, como as borboletas, emergirem para a vida. Os fios, portanto, ao invés de tecerem um ambiente propício para o crescimento, estrangulam e acabam por tolher qualquer possibilidade de desenvolvimento. Este encolher-se é antes um “tiro no pé” do que um modo verdadeiro de nos protegermos dos golpes da vida. Afinal, temos que aprender a lidar com algumas questões e nos proteger quando for necessário (e possível) mas, neste caso, é um estar fora do mundo, um casulo que é um não lugar tecido pelos nossos medos.

E Renata nos fala:

As linhas foram catadas na caixa de costura da minha mãe, que é costureira, me enrolar nele é também me cercar de minha ancestralidade. Estar com o carretel na mão é ter o poder da fala, em meio a tantas pessoas se enrolar nesse carretel é falar silenciosamente, é dar voz ao corpo, é romper o fluxo contínuo e cego, é forçar o olhar de quem passa a ver algo de diferente, linhas que colorem a passarela sobre a via cinza. É sobrepor o corpo ao carro/ônibus (logo no começo tem uma faixa escrita: Cuidado pedestre perigo de morte).

… dos fios do corpo, dos fios da cidade, dos fios que são amarras sociais…

Figura Curvilínea

Como meu corpo e o corpo da cidade se contornam mutuamente! Como, para além das delimitações da própria cidade, existe a separação em áreas/zonas, que são tão delimitadoras-opressoras, e prendem tanto nossos corpos! Tanto tempo de viagem de ônibus, tanta falta de tanta coisa que nos obriga a nos deslocar cotidianamente, tanto estereótipo do suburbano… E ainda tem as linhas do meu corpo, minha trajetória também traça a cidade.

Figurino de linhas

Estava indo performar com o coletivo Heróis do Cotidiano na Maré, e como eu era a unica integrante do coletivo que vinha separadamente, e do subúrbio, decidi me compor no caminho, e fazer dessa chegada uma performance individual, à parte. O caminho da minha casa até a Maré é feito pela Avenida Brasil, de 367, um ônibus que me acompanha desde que me entendo por gente. Na realidade, o caminho de qualquer morador de periferia pra quase todos os lugares é feito pela Avenida Brasil, essa avenida é quase um simbolo da periferia. E as passarelas são sucessivos cortes nessa grande linha, são nós que ligam as duas vias e, no caso da Maré, o que separa o complexo do bairro de Bonsucesso.

Periferia

1. Superfície ou linha que delimita externamente um corpo. 2. Contorno duma figura curvilínea.

O coletivo foi convidado a se apresentar no Centro de Artes da Maré, para isso elaboramos uma performance em que cada performer ocupava um espaço e convidava o público para discutir/performar um tema. O meu era Periferia, e tudo partiu da definição dessa palavra no vocabulário.

Linha e Delimitação

A ideia de linha e delimitação originou a ação, que era uma conversa na qual a posse da palavra coincidia com o segurar de um novelo de linha, e como estávamos com um mapa da cidade no meio, várias linhas/rotas/trajetórias se formavam em cima dele. A linha como via, via azul, verde, amarela, vermelha, rosa… Vias que prendem o corpo livre. Gritar colorido! Durante a ação eu me preocupei em desenhar no corpo e fazê-lo espaçadamente no tempo da travessia, quase um ritual de contorno, percebendo internamente onde precisava de mais linha, quase uma dança improvisada.

Travessia performática

A passarela caracol, onde se passa a performance, é a passarela que eu mais cruzei em toda minha vida! Porque há dois anos, interruptos, a uso para ir trabalhar, na exposição Travessias (que coincidentemente, ou não, discute a ideia de transito na arte e na cidade conjuntamente), cuja terceira edição começava exatamente uma semana após o Periférico. E uma das coisas que sempre me agradou em trabalhar na Maré é o fato de poder descer na Avenida Brasil e não atravessá-la para chegar em outro lugar, tê-la como um lugar e não uma via, uma ponte. E tem a travessia dos sons também, né, começa com um barulho de ônibus, um funk vai surgindo, passa pelo som dos carros e termina num pagode.

Outro Rio

Como tinha um amigo de fora do Rio aqui em casa, o Fabrício Sortica, e ele ia comigo, pedi que ele então filmasse a travessia performática pela passarela, e acho que o vídeo é muito legal também por ter esse olhar externo, de quem tá atravessando pela primeira vez. Aliás, adoro quando amigos de fora vêm aqui pra casa, pois conhecem esse outro Rio, que é separado do Rio turístico por essa avenida.

 

 

Renata Sampaio é artista, arte-educadora e performer. Seus trabalhos giram em torno do corpo como dispositivo de afetação e questionador de territoriedades. É colaboradora do coletivo Heróis do Cotidiano e já integrou trabalhos de artistas como Audrey Cottin, Coco Fusco, Yuri Firmeza e Tino Sehgal.

Rosana Paulino é artista visual, pesquisadora e educadora. Sua produção está ligada a questões sociais, étnicas e de gênero. Seus trabalhos têm como foco principal a posição do negro e, principalmente, da mulher negra dentro da sociedade brasileira. Para conhecer mais seu trabalho, acesse: http://www.rosanapaulino.com.br.

 

 

Dally Schwarz é formada em Estudos de Mídia na UFF. Mestranda em Linguagens Visuais na Escola de Belas Artes da UFRJ, interessa-se pelas imagens do corpo, pela performance e questões feministas e de gênero nas artes. Dança e se pendura para entender melhor seu corpo e os corpos.

[*] Este texto integra a série eixo do fora, desenvolvida por Dally para ctrl+alt+dança.

 

 

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