[textos] Blogueir@ Convidad@: “Libertando o animal na dança”, por André Masseno

LIBERTANDO O ANIMAL NA DANÇA: dois pontos, por André Masseno

 

[1907. Michel Fokine cria especialmente para a bailarina Anna Pavlova a coreografia “A Morte do Cisne’’: um pequeno solo composto por descolamentos en pointe e onde a expressividade se concentra no movimento ondulado dos braços de Pavlova personificando as asas de um cisne em uma morte cambaleante. Uma coreografia que, para o padrão da época e em relação à grandiosidade de seu antecedente “O lago dos cisnes“ (1895), de Marius Petipa — e com o qual a criação de Fokine ainda continua sendo confundida —, era então por demais singela para ser executada por uma bailarina tão renomada e virtuosa. Esta coreografia tornou-se um marco na arte cênica ao ressaltar as possibilidades de manufatura e de pensamento sobre a dança a partir de seu tempo histórico, em vez de engendrar uma subserviência à mera utilização anacrônica e descompromissada do vocabulário (ou se preferirmos, do discurso) de passos pré-estabelecidos do balé. Um cisne que morre personificado no corpo de uma mulher, ou uma bailarina que deixa morrer a exibição do mero apuro técnico em prol de uma possível animalização de si [1]. Através da representação de uma ave mítica e símbolo do ascetismo, entrevê-se em “A Morte do Cisne’’ a idealização do belo evocado pela figuração de um corpo etéreo, embora efetuada por um cisne-bailarina que não consegue mais alçar voo, incapaz de manter a suspensão corporal desejada pela tecnologia da ilusão do balé, que tem as sapatilhas de ponta como o aparato essencial para o menor contato possível do corpo dançante feminino com o solo. Contudo, e fazendo aqui uma revisão histórica, “A Morte do Cisne“ não deixa de ser uma coreografia-dilema em pleno início do século XX, inaugurando discussões sobre as relações entre corpos (animais e humanos) e expressões de “gêneros“ (sexuais, identitários e artísticos).

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[2013. O coreógrafo Tuca Pinheiro, vestindo um figurino azul de balé que não lhe cabe mais e rodeando-se de passarinhos de plástico que assobiam constantemente, propõe a experiência de um corpo que perde gradativamente a sua força vital; um corpo que cede à gravidade, uma fisicalidade grave, pesada como uma morte lenta e abandonada, sem muito gestual e alarde — feito um pássaro azul, morto e esquecido no meio da rua. Um corpo que discute a animalidade como rebelião aos construtos imagético-corporais de uma certa maneira de pensar e fazer dança contemporânea.

Trata-se de “Hyenna: não deforma, não tem cheiro, não solta as tiras“ [2]. Neste solo, criado e performado pelo próprio Tuca, é descartada tanto a figuração de um animal-símbolo da relação entre a vida e a morte, como a discussão sobre o esvaecimento do corpo no espaço do sublime. Em “Hyenna“, o animal é outro, o contexto é diverso: agora é um animal que produz um som que remete a uma gargalhada esganiçada e nada agradável. Um animal que sobrevive de restos deixados pelos outros predadores e visto como personificação do agouro da morte, da realidade crua das sobras e do contentamento sarcástico com o pouco que lhe resta. Poder-se-ia dizer que a hiena executa o fadado “trabalho sujo“ ao limpar os rastros da caça. E justamente a ideia da hiena como uma condição animal de vivência com as sobras parece ser o interessante ponto de partida do espetáculo de Tuca Pinheiro: as possibilidades do transformar raspas e restos em banquete.

A hiena não é representada ao longo do trabalho, pois o que está em jogo não é a sua representação em si, mas o compartilhamento de uma “condição-hyenna“: a de uma inadequação, a de um corpo que se percebe desajustado, inoperante, ineficiente; a condição de quem chega por último e que sobrevive do descartado, seja na prática artística ou no modo de experienciar a vida. Neste corpo improdutivo, as discursividades se mesclam: é “O Rei Leão’’ de Walt Disney convivendo com o “Quarteto para o fim dos tempos’’, de Messiaen; é a canção de Zeca Pagodinho mais o rock melancólico de Raul Seixas e um discurso em francês de liberdade e igualdade porém com forte sotaque português.

Tuca Pinheiro aposta na estratégia de retomar perante a plateia as operações de marginalização intelectual acionadas por algumas escolhas estéticas ou discursividades eurocêntricas em nosso contexto cultural: pois quem não entende francês, falado irônica e perversamente em uma boa parte do espetáculo, “dança“ – ou seja, quiçá todos já estejam dançando há uns quinhentos e poucos anos do lado de cá do Atlântico. Nesta retomada em ficção de uma certa fala autorizada, o corpo de Tuca Pinheiro remete a sua inquietação ao espectador, ao mesmo tempo que toma para si o desconforto produzido na plateia, que o assiste reativando piadas politicamente incorretas sob o formato stand up comedy, expondo seu corpo em situações comumente consideradas absurdas e referindo-se a si em tom depreciativo. Embora o artista seja supostamente o dono do jogo e o detentor de suas regras, por fim, acabam todos no mesmo barco, ou melhor, à deriva, “rodeando a carniça“ enquanto a frase estampada na camiseta do artista faz um apelo à consciência que lhes resta: Keep calm and enjoy the moment

A risada vívida da “Hyenna“ de Tuca Pinheiro problematiza os impasses culturais que perpassam o fazer artístico, nos desafia a pensar em que espaço geopolítico se insere — e está sendo inserida — a dança contemporânea. “Hyenna“ aponta e ri da falácia auto(euro)centrada e dominante em algumas práticas e padrões mentais do lado de baixo do Equador: em certo momento do espetáculo, por exemplo, o artista propõe para si uma série de ações vigorosas e repetitivas no intuito de “liberar“, “libertar“ o seu corpo. Estas ações compõem um procedimento pseudo-democrático de treinamento corporal, revelando a perversa readequação de uma disciplina corporal por uma outra tão não-liberadora e não-libertadora quanto a que está sendo substituída. Sendo assim, até que ponto os corpos que dançam estão realmente libertos e propondo a sua própria dança? Por meio da estratégia de pregação de uma suposta “liberdade e igualdade“ enfatiza-se a prevalência de hierarquias e de procedimentos considerados “naturais“ e inquestionáveis no modo de propor, analisar e colocar a dança brasileira contemporânea dentro do mercado neoliberal. Deste modo, o que aciona a provocação contida no subtítulo do solo, que se apropria do antigo jargão propagandístico das Havaianas, esta famosa sandália brasileira que há alguns anos se tornou o calçado-símbolo de uma cultura nacional do lazer e do turismo pronta para a exportação? Como a dança contemporânea vem negociando com este agenciamento das artes produzidas no Brasil como espaço da “sombra, suor e água fresca’’?

Estas são algumas das indagações que transbordam o espaço desta escrita e que podem ser entrevistas na proposição artística de Tuca Pinheiro, que se afasta da representação pitoresca do corpo dançante, promovendo o aparecimento de uma fisicalidade que falha e que não pertence a determinados circuitos de produção e de circulação de dança contemporânea. “Hyenna’’ é uma dança não autorizada, por ser a dança do mau gosto das sobras, um trabalho que se alimenta de questões descartadas pela história dos modos de fazer e pensar a dança no Brasil, tais como a discussão das representações de gênero nos corpos dançantes, a perda da juventude do corpo que dança e a sua condição de menos-valia no espaço cênico da eficiência. Se, por um lado, o trabalho de Tuca Pinheiro não é o único interessado a discutir essas premissas na cena contemporânea atual, por outro, a singularidade da “condição-hyenna’’ é intransferível, porém ao mesmo tempo compartilhável pela sua própria singularidade: a de ser um animal sem pedigree.

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[1] Reza a lenda que a coreografia de Fokine surgiu após um pedido feito pela própria Pavlova, que havia prometido se apresentar durante um concerto que seria dado pelos artistas do coro da Ópera Imperial Russa. Segundo Cyril Beaumont, foi pensando na estrutura corporal da bailarina, principalmente em seu pescoço longo, que o coreógrafo chegou à conclusão que a dança precisava ser bela e expressiva (BEAUMONT, 1981, p.25-6).

[2] “Hyenna: não deforma, não tem cheiro, não solta as tiras“ estreou em novembro de 2013 no Espaço Ambiente, Belo Horizonte, em co-produção com o FID (Fórum Internacional de Dança)/Território Minas. Criação e intérprete: Tuca Pinheiro. Dramaturgia: Rosa Hercules. Colaboração bibliográfica: Adriana Banana. Projeto de luz: Leonardo Pavanello. Pesquisa de trilha: Tuca Pinheiro. Captação, edição e finalização de áudio: Kiko Klaus. Material fotográfico: Caroline Silas. Registro videográfico: Denizard Dennis.

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BEAUMONT, Cyril N. Michel Fokine and his Ballets. New York: Dance Horizons, 1981.

GIORGI, Gabriel. Formas comunes: animalidad, cultura, biopolítica. Buenos Aires: Eterna Cadencia Editora, 2014.

MCLEAN, Adrienne L. Dying Swans and Madmen: Ballet, the Body, and Narrative Cinema. New Brunswick: Rutgers University Press, 2008.

 

André Masseno é coreógrafo e performer. Mestre e especialista em Literatura Brasileira pela UERJ.

 

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