[ctrl+alt+dança MÓVEL] [textos] Raíssa Ralola propõe estratégia de feedback para espetáculo da Cia. da Ideia

[Cia. da Ideia em Batuque Contemporâneo / fotos: Julius Mack]

Conheci um método de feedback em 2012, na cidade de Porto Alegre (RS), através do coreógrafo Luis Garay – no contexto da residência artística “Outras Danças – Brasil, Uruguai e Argentina” promovida pela FUNARTE / MinC: consistia em colocar nossos trabalhos artísticos ‘na roda’ para um processo de crítica coletiva. Guardo boas lembranças desses momentos, por vezes duros, mas construtores e redirecionadores de propostas.

O método funcionava presencialmente na ocasião. Sempre que o realizávamos, após assistir à proposição de um dos residentes (um vídeo, um ensaio, uma apresentação, etc), fazíamos uma roda e os criadores eram excluídos da conversa. A participação deles acontecia através da escuta, e quem desenvolvia a crítica utilizava-se de um enquadramento específico via ferramentas como “O que funcionou para mim…”, “Fofoca”, dentre outras.

Em virtude das visitas do ctrl+alt+dança MÓVEL, decidi, em parceria com Dally Schwarz e Julius Mack, utilizar tal método de feedback, fazendo uma devolutiva crítica à coreógrafa Sueli Guerra e toda a Cia. da Ideia sobre Batuque Contemporâneo. Estivemos presentes em apresentações do espetáculo nos SESCs Ginástico, Tijuca e São João de Meriti.

Cia da Ideia [4] foto_Julius Mack

Cia. da Ideia / foto: Julius Mack

Para este feedback, a três vozes, utilizaremos as seguintes ferramentas:

  1. O que funcionou
  2. Como… precisaria…
  3. Fofoca

 

Então, vamos lá!

 

1. O que funcionou:

as cores dos figurinos

a entrega dos bailarinos na proposta de jogo cênico

conversar com a Cia. da Ideia em seu espaço de ensaio

ver nos corpos dos bailarinos suas trajetórias pessoais

sentir em alguns momentos uma energia que atravessava os bailarinos e transbordava para o público

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2. Como… precisaria…

Como jardineira, precisaria de mais poda nas arestas do espetáculo (podaria tudo o que sobra!).

Como percussionista, precisaria de mais som do corpo dos bailarinos.

Como bailarino, precisaria de mais liberdade nos momentos de grupo.

Como cenógrafo, precisaria pensar mais sobre a quantidade de instrumentos e a organização deles na cena.

Como artista visual, precisaria pensar mais sobre a relação do vídeo com os intérpretes em cena.

Como diretora, precisaria de mais alguém para me dirigir nos ensaios.

Como feminista, precisaria de mais esclarecimentos sobre a cena em que as bailarinas têm as nádegas transformadas em tambor pelo músico.

Como VJ da MTV, precisaria entender se o trabalho é um clipe musical.

Como artista marcial, precisaria de mais confronto, confronto real.

Cia. da Ideia / foto: Julius Mack

Cia. da Ideia / foto: Julius Mack

3. Fofoca

§ Pra mim tem muitos momentos em que o músico está solando e esta figura fica muito forte. Ele traz elementos, uma relação com instrumentos que não são tão popularizados, e o som desses instrumentos nos tira do lugar. Eles nos colocam em lugares de maravilhamento com a música. Quando os bailarinos, ou as bailarinas, faziam outras aproximações dos instrumentos (que também podiam ser potentes), isso ficava ‘em briga’. Eu sentia essas duas coisas ali e não conseguia chegar a um acordo. Depois de ter visto o vídeo do Batuque Contemporâneo em espaços abertos, no Parque Lage e no Parque das Ruínas, fiquei me questionando sobre a escolha de estar num teatro. Achei que o trabalho se potencializa muito em espaços abertos. Tem o jogo, a brincadeira, a aproximação com o público. Achei que o trabalho não cabia tanto no espaço do teatro, senti um aperto, uma impossibilidade de ressoar ∞ No dia em que conversamos com toda a Cia. da Ideia, Sueli disse que “dança em qualquer lugar”, o que por um lado é muito interessante; ser móvel e adaptar o seu trabalho de todas as maneiras, para todos os formatos, para diferentes locais. Mas penso que há uma coisa importante que é entender as peculiaridades do trabalho, para não perdê-las. Quando você diz que o trabalho funciona mais quando assiste a um vídeo dele realizado num espaço aberto, do que quando o assiste ao vivo num teatro, talvez esteja falando sobre isso. Sobre algumas peculiaridades, alguns pontos fortes que se perdem quando o espetáculo sai de um terreno para outro « Fui muito atravessado pelo som produzido pelo músico e pelo modo como ele se integrava com aquele som, mas sentia algum desencontro quando este som chegava aos bailarinos. Era como se o corpo deles não reverberasse a frequência daquele movimento sonoro. Como se existissem corpo e som, não uma integração entre ambos. Isso se diluía nos duos em que havia o músico e um dos bailarinos ∞ Sim, eu concordo, e penso que em muitos momentos a dança é pano de fundo para a música. Fica evidente que o espetáculo parte da música para a dança. Pelo que conversamos com a Cia. da Ideia, este não é o interesse, mas como espectadora tive essa impressão quase o tempo todo. O músico tinha uma possibilidade de solar e de se expressar tocando, com muito tesão, o que os bailarinos não conseguiam acessar, talvez por não possuirem esse espaço § Acho muito saudável que coreógrafos e criadores possam se encantar com alguma coisa e este encanto ser motivação para criar. Sueli deixou isso muito claro conversando conosco, o que também reverberou na fala dos bailarinos… eles se encantaram pelo trabalho do músico Guga Machado. Penso que isso é muito saudável para nos refrescar enquanto fonte de criação mas, ao mesmo tempo, acho que os trabalhos tendem a cair em elogios. Daí, cai-se no risco de deixar passar ou não perceber os muitos elementos que podem ser lapidados, e que não estão somente em relação à música como fonte de inspiração. A música de Guga é um disparador de interesse, de tesão, de vontade de criar, mas até onde? Até onde vai e até onde funciona? ∞ Há uma conversa pouco resolvida entre movimento, som e vídeo. Talvez um excesso de todas as coisas, algo de prolixo nesta conversa « Confesso que até agora a música do espetáculo reverbera em mim, mas em nenhum momento a imagem como dança ∞ Pra mim é um pouco diferente. Eu me recordo de momentos potentes dos bailarinos, nos solos. Nas movimentações em grupo, no entanto, penso que havia uma coisa que aprisionava a fluência. Talvez seja a atuação de uma mesma pessoa como “guia de movimentos” nos momentos de grupo. Não sei se isto é percebido pela própria Cia. da Idéia. Existe um momento em que as bailarinas abaixam seus troncos, evidenciando suas nádegas, que são transformadas em tambor pelas mãos do músico. Não quero ser purista, mas há uma questão rondando essa parte. Trata-se de um momento leviano, a meu ver, que urge por um posicionamento crítico § Acho que o que aparece como questões políticas é sempre o que em nosso dia a dia tornamos pequeno, gestos que tornamos naturais. É muito comum cair em clichês e se colocar em clichês porque é o que acontece na vida como gesto ordinário. Talvez seja mais uma questão de ajuste de lugares que parecem pequenos, mas não são invisíveis ∞ Por isso, o trabalho de um jardineiro é indispensável. Um jardineiro não só chega e apara a planta, ele precisa estabelecer uma relação ali. Precisa saber quando podar, qual a melhor estação do ano para podar, quando plantar a semente para que frutifique. Ele é um parceiro do vegetal § Sim, o jardineiro tem cuidado, pois está lidando com a vida, e a planta tem uma comunicação difícil para nós, seres humanos. Talvez o nosso corpo também tenha um tipo de comunicação parecida: sutil e silenciosa.

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Raíssa Ralola é artista e educadora. Estudou Artes (UFJF) e Dança e Metodologia Angel Vianna (FAV). É mestre em Artes (UERJ), participou da equipe de coordenação da Pós-Graduação em Conscientização do Movimento e Jogos Corporais na Faculdade Angel Vianna (entre 2013 e 2015), e atualmente é professora da Faculdade Machado Sobrinho (Juiz de Fora (MG)). Mora em Juiz de Fora (MG).

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